Um movimento chamado Cascavel Dancers

13 de fev. de 2026


Nascido em 2014 como um grupo de estudos, o Cascavel Dancers hoje vai muito além dessa definição. Parceria e família são algumas das principais palavras usadas para descrever o grupo, que nasceu do amor de duas pessoas pelas danças urbanas: Mayara Müller e Tonton Santos.

Mayara começou sua trajetória na dança ainda muito nova em sua cidade natal, Missal, no Paraná. Iniciou no ballet e dança folclórica e logo percebeu que amava a dança, mas que faltava algo que ela não sabia explicar o que poderia ser. Foi apenas com 12 anos, quando sua companhia de dança participou do maior festival de dança do país, o Festival de Joinville, na categoria dança folclórica, que ela viu dançarinos de hip-hop pela primeira vez e seus olhos brilharam e soube naquele momento que era aquilo que queria fazer.

Comprou suas primeiras roupas largas ainda sem ter muita ideia de como as usar, se juntou com algumas amigas e começou a treinar por conta própria e sempre que surgia oportunidades de ir em eventos fora de sua cidade, ela ia. Não perdia um ensejo de aprender e mais importante ver o hip-hop. Foi quando fez 16 anos que sua maior oportunidade apareceu: o Festival de Dança de Cascavel, onde teria uma semana inteira dedicada a aulas do estilo com grandes nomes como Fran Manson.

Aos 17 anos se mudou para Cascavel para cursar a faculdade e não muito tempo depois ingressou no grupo The Art of Dance, onde conheceu Tonton, que hoje é seu parceiro e sócio. Mayara começou dar aulas de hip-hop em um studio de dança da cidade em 2012 e foi aí que sua carreira na dança começou.

Natural de Cascavel, Tonton iniciou sua caminhada na dança aos 8 por meio de um projeto social desenvolvido em seu bairro, o “Power of Dance”. Aos 14 anos, o que começou como paixão se transformou em profissão, passando a atuar como professor em projetos sociais pela cidade. Não demorou para que também fosse convidado a integrar o grupo The Art of Dance.

Entre 2010 e 2013, período em que fizeram parte do grupo, Mayara e Tonton intensificaram os treinos, participaram de festivais e competições e passaram a ganhar cada vez mais espaço e reconhecimento na cena da dança local. Foi também nesse processo que a dança deixou de ser apenas prática artística e passou a ser entendida como identidade, pertencimento e possibilidade de futuro.

Em 2013 o grupo se desfez. E alguém precisava tomar a frente e continuar. Mayara, junto com agora namorado Tonton, se uniram para essa importante tarefa. Assim foi formado o grupo Rejected, com os membros do antigo grupo que ainda permaneciam em Cascavel. Foi nesse momento que os idealizadores entenderam que o projeto havia se consolidado como uma comunidade, construída por pessoas que se reconheciam na estética, nos valores e na história do grupo.

Desde o primeiro contato, o acolhimento tornou-se parte essencial do processo. Quem chega é apresentado à trajetória do grupo e encontra um espaço onde o tempo e a fase de cada um são respeitados. O sentimento de pertencimento, segundo eles, não é imposto, mas construído na convivência diária, no treino e nas trocas que acontecem dentro e fora do estúdio.

Além da formação técnica, o Cascavel Dancers passou a transmitir valores de extrapolam a dança. Constância, comprometimento e persistência são alguns dos valores que os integrantes levam para a vida cotidiana. A dança se torna em agente transformador, ensinando disciplina e responsabilidade.

Ao longo de mais de uma década, o grupo também serviu como agente impulsionador da cultura cascavelense, levando o nome da cidade para eventos, competições e batalhas nacionais e internacionais. Tudo isso enquanto formava novos profissionais, movimentando a dança local e criando espaços de troca, seja por meio de eventos próprios ou pela preparação de pessoas que hoje atuam em projetos, escolas e iniciativas ligadas à cultura urbana.

Esse processo culminou, em 2021, na criação da primeira escola especializada em danças urbanas de Cascavel, um passo decisivo para a profissionalização da cena local. O projeto foi desenvolvido por Mayara e Tonton em parceria com Luciane Lazzari, que se tornou sócia do Cascavel Dancers e trouxe sua experiência na produção cultural e na gestão. A escola passou a ser um espaço estruturado de formação, oferecendo continuidade, aprofundamento técnico e perspectiva de carreira para quem escolhe a dança como profissão.

Mesmo após a consolidação do Cascavel Dancers, Mayara e Tonton nunca encararam o grupo como um ponto de chegada. A busca por estudo e atualização constante sempre fez parte da trajetória, com participações frequentes em eventos, festivais e formações fora do país. Ao longo dos anos, ambos passaram a integrar espaços internacionais de destaque, como o Fair Play Dance Camp, onde Mayara atuou como professora convidada e Tonton conquistou reconhecimento em batalhas, ampliando o diálogo do grupo com a cena global da dança urbana.

Essas vivências no exterior não apenas fortaleceram a formação individual de Mayara e Tonton, mas também retornaram para Cascavel em forma de aprendizado compartilhado, repertório ampliado e novas possibilidades para quem faz parte do grupo.

Com o crescimento, vieram também os desafios. Manter o grupo ativo e unido exige constância e alinhamento entre pessoas em fases diferentes da vida. O choque de gerações, com referências, expectativas e formas distintas de se relacionar, tornou-se um dos principais pontos de atenção. Conciliar criação artística, gestão de pessoas e produção cultural demanda equilíbrio emocional, organização e presença constante dos idealizadores.

A transição para outras áreas artísticas aconteceu de maneira orgânica. A relação do Cascavel Dancers com a moda sempre foi atravessada pela ideia de identidade. Os uniformes nunca foram pensados apenas como vestuário, mas como extensão do que o grupo representa.

A partir dessa visão, surgiu a colaboração com o Arte Gera Arte, unindo o desejo de ousar na moda com a estética da dança urbana. A coleção foi criada a partir das ideias pessoais de Mayara e Tonton, em parceria com Rafa e Mayra, e carrega símbolos que já fazem parte da história do grupo, como a cobra, elemento presente no design e que se tornou marca do grupo.

A collab ampliou o alcance do Cascavel Dancers, fazendo com que sua criação dialogasse não apenas com alunos e dançarinos, mas com qualquer pessoa que se reconhecesse na estética, na atitude e no que o grupo representa.

A música surgiu como mais uma possibilidade de ampliar experiências e atravessar novas linguagens. O lançamento do álbum Muda sua Vibe de Tonton Santos nasceu como um projeto pessoal, com a proposta de criar a vivência de dançar para artistas mesmo fora dos grandes centros.

A iniciativa reverbera diretamente no Cascavel Dancers ao abrir oportunidades para que integrantes participem de shows, experimentem outros contextos profissionais e ampliem repertório. O projeto dialoga com o estilo musical consumido pelo grupo e mantém a estética e a energia que já fazem parte da identidade construída ao longo dos anos, reforçando o entendimento de que as linguagens artísticas se cruzam e se fortalecem mutuamente.

Hoje, o Cascavel Dancers segue em constante transformação, mantendo a essência que deu origem ao grupo, mas atento às mudanças do tempo e às necessidades de quem faz parte da comunidade. A ideia de crescimento nunca esteve ligada apenas a números ou visibilidade, mas à qualidade das relações, ao impacto gerado na cena cultural e à possibilidade de continuidade para as próximas gerações.

Optar por construir essa trajetória a partir do interior do Paraná sempre foi uma escolha consciente. Permanecer em Cascavel significa fortalecer a cultura local, criar oportunidades onde antes elas não existiam e provar que é possível desenvolver uma carreira sólida na dança fora dos grandes centros.

O Cascavel Dancers se estabelece, assim, como um espaço de formação, criação e resistência, onde a dança urbana é entendida como linguagem artística, profissão e ferramenta de transformação social.

Mais do que um grupo, o Cascavel Dancers se consolida como um território de encontro. Um lugar onde histórias se cruzam, onde a arte conecta diferentes áreas e onde o movimento ultrapassa o corpo para alcançar identidade, pertencimento e futuro.

Confira abaixo a entrevista completa com Tonton Santos e Mayara:

NOTTHESAMO: Como a dança entrou na vida de vocês e em que momento ela deixou de ser apenas uma prática artística para se tornar um projeto de vida?

CASCAVEL DANCERS: A dança entrou nas nossas vidas muito cedo, quase como uma brincadeira. Com o tempo especialmente a partir do contato com o hip hop e das primeiras competições e eventos, entendemos que a dança não era só movimento, mas identidade, pertencimento e possibilidade de futuro.

Foi em 2013/2014 que decidimos, juntos, seguir mais firmes nessa caminhada. Sabíamos que, para isso, precisaríamos estudar mais, viajar mais e aprofundar nosso entendimento. A partir desse processo, escolhemos trilhar nosso caminho aqui na nossa cidade, transformando aprendizado em frutos.

Hoje, a dança é nosso projeto de vida. Ela atravessa nossa formação, nosso trabalho e nossas escolhas, nos ensinando disciplina, responsabilidade e a construir uma trajetória sólida, com verdade, compromisso e propósito, mesmo fora dos grandes centros.

N: Quais referências artísticas, culturais ou pessoais mais influenciaram a formação de vocês como artistas?

CD: Nossa formação como artistas é atravessada por muitas referências. Culturalmente, o hip hop teve um papel fundamental, não apenas como linguagem de dança, mas como movimento que ensina identidade, pertencimento, resistência e troca.

No início, fomos muito influenciados por professores que marcaram nossa base e formação, como Rogério, Toshiba, Eliseu Correa,  Mariangela Reiter, Wyllian Ramos e Fran Manson. Mais tarde, outras referências passaram a nos inspirar técnica e profissionalmente, especialmente coreógrafos que dialogam com o mercado atual e tiveram uma grande interferência na nossa evolução técnica, como Lyle Beniga, Diana Matos, Shay Latukolan e Kenzo Alvares.

Artisticamente, artistas como Chris Brown, Michael Jackson e Beyoncé também nos influenciam e inspiram pela força estética, musical e performática.

Além disso, nossa vivência fora dos grandes centros moldou quem somos como artistas, fortalecendo nossa autenticidade e constância na construção da nossa trajetória.

N: Como surgiu a ideia do Cascavel Dancers e de que forma esse projeto começou a tomar forma?

CD: O Cascavel Dancers surgiu de uma necessidade real que sentíamos na nossa própria caminhada. Depois de estudar, viajar e entender melhor o mercado da dança, percebemos que queríamos aplicar tudo isso aqui na nossa cidade. A ideia nasceu do desejo de criar um espaço que fosse além de aulas: um lugar de formação, troca e pertencimento, onde pessoas pudessem se desenvolver artisticamente e profissionalmente sem precisar sair de Cascavel. Assim, o Cascavel Dancers surgiu como um projeto que transforma vivências em aprendizado e constrói frutos a longo prazo.

N: No início, vocês imaginavam que o grupo se tornaria essa comunidade que existe hoje?

CD: No início, não imaginávamos que o Cascavel Dancers se tornaria a comunidade que é hoje nãO. Éramos um grupo de amigos, muito jovens, agindo de forma genuína, sem pensar demais...apenas vivendo, treinando e estando juntos.

Com o tempo, mais pessoas passaram a querer pertencer, não só pela informação e pelo estudo que o grupo proporcionava, mas por tudo o que envolvia: a troca, o ambiente, talvez o acolhimento também.... Hoje, entendemos que essa comunidade se formou justamente pela verdade, constância, cuidado e respeito pela fase de cada um ao longo do processo.

Um movimento chamado Cascavel Dancers

N:  Em que momento vocês perceberam que o Cascavel Dancers não era apenas um grupo de dança, mas uma comunidade?

CD: Percebemos que o Cascavel Dancers não era mais apenas um grupo de dança quando ele passou a representar algo além do treino e das aulas. Um momento marcante foi quando pessoas de fora, que nem treinavam com a gente, queriam usar nossa roupa, nossos "uniformes" e vestí-la nos eventos. Aquilo mostrou que não era só sobre dança, mas sobre pertencimento, identidade e orgulho de fazer parte. A partir dali, entendemos que o Cascavel tinha se tornado uma comunidade, construída por pessoas que se reconhecem no que o projeto representa.

N:. Como vocês trabalham o sentimento de pertencimento dentro do grupo, especialmente com novos integrantes?

CD: A gente trabalha o pertencimento desde o primeiro contato. Quem chega é acolhido, entende a história do grupo e percebe que cada um tem seu tempo respeitado. É na convivência, no treino e nas trocas do dia a dia que o sentimento de “isso aqui também é meu” vai sendo construído.

N: Qual é o principal impacto do Cascavel Dancers na vida de quem faz parte dele, para além da dança?

CD: Além da dança, o Cascavel Dancers ensina constância, comprometimento e persistência. A dança exige isso, e quem vive esse processo leva esses valores para qualquer coisa que escolha fazer.

N: Vocês sentem que o Cascavel Dancers contribui para o fortalecimento da cena cultural de Cascavel? De que maneira?

CD: Sim. O Cascavel Dancers contribui para a cena cultural de Cascavel ao formar pessoas, movimentar a dança e criar espaços de troca. Somos espelho de eventos que fomentam as aulas de dança e fortalecem a cultura urbana na cidade.

Durante mais de uma década, viajamos pelo Brasil e para fora dele, levando o nome de Cascavel em eventos, competições de grupos e batalhas. Além disso, abrimos portas para novos profissionais, não só através dos nossos próprios eventos, mas também direcionando e preparando pessoas para atuarem na cidade, em projetos, escolas e iniciativas ligadas à dança.

N:  Quais foram os maiores desafios enfrentados para manter o grupo ativo e unido ao longo do tempo?

CD: O maior desafio para manter o grupo ativo e unido é a constância e o alinhamento entre pessoas em fases diferentes. O choque de gerações também tem sido um dos pontos mais desafiadores, já que cada geração chega com referências, expectativas e formas de se relacionar diferentes.

N: Como é conciliar criação artística, gestão de pessoas e produção cultural dentro de um coletivo independente?

CD: Conciliar tudo isso exige muito equilíbrio emocional, organização e estar sempre ativo, colocando a mão na massa. A criação artística é a parte mais natural pra gente, ela flui de forma orgânica e é onde temos mais facilidade. Já a gestão de pessoas é o que mais exige energia, principalmente mental, porque envolve escuta, cuidado.

Na produção cultural, somos três pessoas à frente, e uma delas é nossa sócia Luciane Lazzari, que tem uma longa caminhada e muita experiência na área. A expertise dela nos permite ir mais longe, cometendo menos erros e tornando os processos cada vez mais eficientes com o passar do tempo.

N: Que tipo de legado vocês gostariam que o Cascavel Dancers deixasse para a cidade?

CD: Queremos deixar o legado de que trabalhar com dança é possível, tem futuro e pode ser uma carreira sólida como qualquer outra profissão. Que estudar dança seja encarado com seriedade, dedicação e constância, assim como qualquer área. E, principalmente, mostrar que não é preciso sair do interior para viver disso.. é possível construir uma trajetória forte, a partir de onde se está.

N: Quais são os próximos passos e sonhos para o futuro do grupo?

CD: Nossos próximos passos passam por fortalecer ainda mais a formação, ampliar projetos e seguir profissionalizando o grupo. Sonhamos em expandir nossas ações, criar mais oportunidades para quem faz parte e continuar levando o nome de Cascavel para outros lugares, sem perder nossa essência. Mais do que crescer em tamanho, queremos crescer em qualidade, impacto e continuidade.

N: Como o Cascavel Dancers passou a transitar por outras áreas artísticas além da dança, como moda, artes visuais e música?

CD: Desde o início, o Cascavel Dancers transitou por outras áreas de forma muito orgânica. A moda sempre foi um interesse nosso. Os uniformes nunca foram apenas uniformes, eles sempre carregaram identidade, assim como os figurinos de espetáculos de fim de ano, onde depositamos nossas ideias e referências.

As artes visuais sempre caminharam lado a lado com a dança. Sempre entendemos como algo necessário para expressar nossa visão e dar forma ao trabalho construído dentro da sala de aula. Estivemos mais ativos nessa área há cerca de cinco anos atrás e em 2026, a ideia é retomar essas produções.

A música surgiu como uma possibilidade de ampliar experiências: criar oportunidades para que nossos alunos dançassem para artistas, participassem de shows e vivessem a dança em outros contextos, ampliando repertório. Tudo isso também vem do nosso desejo de não limitar as linguagens, entendendo que elas se cruzam, se fortalecem e ampliam quem somos como artistas e criadores.

N: A colaboração com a Arte Gera Arte na criação da coleção de roupas mostrou uma aproximação entre dança e moda; como vocês enxergam essa collab dentro da identidade do grupo?

CD: A collab surgiu da nossa visão individual, May e Tonton. Como nossa imagem está sempre ligada ao Cascavel Dancers, o grupo acaba se conectando à collab também. Criamos a coleção a partir das nossas ideias pessoais, juntamente com o Rafa e a Mayra do Arte Gera Arte, unindo nossa vontade de ousar na moda dentro do cenário da dança, ousando como sempre. A identidade, atrelada à cobra nas roupas e no design, é impossível não colocar, porque é a nossa marca, quem somos.

N: De que forma essas parcerias artísticas ajudam a expandir a comunidade do Cascavel Dancers e a dialogar com públicos que vão além da cena da dança?

CD: Essas parcerias ajudam a fazer com que nossa criação seja consumida não só por alunos ou dançarinos, mas por qualquer pessoa....para quem se reconhece na estética, na atitude e no que representamos.

N: O lançamento do álbum do Tonton também marca essa conexão com a música; como esse projeto musical se relaciona com a história, a estética e os valores do Cascavel Dancers?

CD: A ideia era criar a experiência de dançar para artistas, mesmo sendo de uma região menor. Era um projeto pessoal meu (Tonton), mas que também reverbera no grupo, combinando com o estilo musical que a maioria consome, mantendo a estética e a energia que já temos.