Camping das Minas: a imersão criativa na música feminina
O projeto nasce de uma necessidade concreta dentro da música: criar espaço, estrutura e circulação para mulheres em uma cena que historicamente limita esse protagonismo. Idealizado pela Xaolin Rec, com direção da Fernanda Corre Rua, o projeto se organiza como uma imersão criativa que reúne artistas, produtoras e profissionais em um ambiente de troca direta, onde produção musical, construção de imagem e entendimento de mercado acontecem ao mesmo tempo.
A dinâmica passa por sessões de estúdio, criação audiovisual, rodas de conversa sobre direitos, carreira e posicionamento, além de um convívio contínuo entre artistas de diferentes trajetórias. Nomes como Stefanie, Beatriz Denaro, Jovem MK, OGLunna e MC Ktrine constroem esse ambiente junto de produtoras como IAMLOPE$$, DJ Spena e Madre Beatz, criando um ecossistema onde experiência e formação caminham juntas.
O projeto também se desdobra para além da imersão, com lançamento de músicas, registros audiovisuais e conteúdo digital que documentam esse processo. Com a segunda edição prevista para 2026, o Camping das Minas consolida um modelo que mistura formação, produção e visibilidade, atuando diretamente na base da cena. Em um momento em que o funk e o rap seguem crescendo, iniciativas como essa ajudam a reorganizar quem ocupa esses espaços e de que forma essas histórias passam a ser contadas. Batemos um papo com a @beatrizdenaro_ sobre o camping, as trocas que aconteceram e a importância de um movimento assim para a cultura. Confira o bate papo completo em nosso site. Link na bio.
NOTTHESAMO: Quando vocês pensaram esse espaço, foi mais sobre criar música ou criar um ecossistema criativo que não existe na indústria hoje?
Beatriz Denaro: Quando a gente pensa no espaço do Camping das Minas, a gente mesmo cria esse ecossistema criativo que não existe ainda, né? Porque a gente sabe que quando se trata de música é um ambiente muito dominado por homens, e dentro dessa movimentação que é o Camping, sem tirar tanto essa presença das Minas, quanto esse espaço seguro para elas criarem da forma que elas acreditam que tem que ser criado seu som.

NTS: Esse tipo de imersão muda mais a música ou muda mais as pessoas?
B: Acredito que muda tanto a música quanto as pessoas que participam desse movimento. Além da construção dos dias de camping, com artistas que estão participando e as que estão acompanhando rola bastante troca, muita conexão. Por exemplo, no camping com as rodas de conversa, possibilitamos que as minas percebam que todas nós temos um ponto em comum e que todas nós trazemos várias marcas de lutas parecidas. Então, acredito que o Camping das Minas é um espaço para além da evolução da música em si, é um espaço que possibilita a evolução das artistas que participam dele.

N: O que vocês descobriram sobre vocês mesmas criando juntas que talvez sozinhas não apareceriam?
Falando sobre minha experiência, descobri no Camping das Minas que o que eu fazia era RAP. Talvez se eu não tivesse escutado isso de uma mina que faz RAP, que faz isso com bastante maestria, eu talvez não ia me sentir parte do movimento. Então acredito que na minha experiência, tem esse lugar de importância de ter sido lugar que me mostrou que eu poderia me colocar nesse lugar. Eu devo muito ao Camping das Minas por ter tido essa troca com outras mulheres e ter conhecido uma mina que olhou para o meu trampo e entendeu que talvez eu estivesse perdida, sabe? E aí, a partir disso, eu começo a me desenvolver melhor como artista e começo a enxergar minha carreira de outro jeito, em outra vertente, tá ligado? Percebo que eu tava nadando num lugar que não era meu mar.
N: Quais outras produções além de músicas o projeto visa proporcionar?
Além das músicas, o projeto visa proporcionar para as artistas uma produção audiovisual e criar um espaço de vivência e networking. Além disso, queremos possibilitar às artistas questão começando a trocar com artistas que têm mais tempo de carreira, produzir conteúdos sobre isso e usar das nossas redes para impulsionar essas carreiras.

N: O que vocês levam daqui que não é música, mas talvez seja até mais importante que ela?
O que eu levo do camping, que é mais importante que a música, é a possibilidade de conhecer outras minas e ensinar, aprender, trocar com essas minas e me reconhecer também nelas. É um momento que a gente tem a abertura pra gente se conhecer e perceber o quanto a gente tem em comum, o quanto a gente é mais forte juntas, o quanto a gente pode conhecer outras histórias. A gente sai um pouco desse lugar do artista que é meio egocêntrico, né? A gente sai desse lugar onde a gente fica nós, nós, nós, nós*…* Então, assim, eu não quero me sobressair em cima da arte de outra, de outra parceira, eu quero que todas nós construímos, tenham a capacidade de conseguir construir juntas, trocando uma coisa bonita, sabe? Uma coisa que todas saem orgulhosas. Então acredito que o que eu levo do Camping é o coletivo com outras mulheres que é importante pra caramba. Levo as histórias delas para inspirar minha letra, pra inspirar minha arte e levo muita coisa boa, na verdade. Muitas aprendizados de mulheres incríveis.





