Como a imigração impacta no futebol?
Durante as últimas décadas, tornou-se comum ouvir que determinadas seleções representam o impacto da imigração no futebol. A França campeã do mundo em 2018 foi frequentemente descrita como um retrato das diásporas africanas na Europa. O Marrocos, semifinalista em 2022, chamou atenção por reunir jogadores nascidos na Holanda, Espanha, Bélgica e França. Inglaterra, Bélgica, Alemanha e até o Canadá passaram a ser analisados sob a mesma perspectiva. Existe, no entanto, um problema nessa leitura: ela costuma tratar a imigração como um fenômeno recente dentro do futebol, quando, na realidade, ela está presente desde o nascimento do esporte moderno.
A própria expansão do futebol para fora da Inglaterra aconteceu através da circulação de pessoas. Engenheiros ferroviários, comerciantes, marinheiros, funcionários de companhias britânicas e trabalhadores ligados às ferrovias levaram bolas, regras e clubes para diferentes partes do planeta ao longo do século XIX. Antes mesmo de existir uma Copa do Mundo, o futebol já viajava junto com os fluxos migratórios provocados pela Revolução Industrial e pela expansão econômica britânica.

Quando a Copa do Mundo foi criada em 1930, essa discussão ganhou outra dimensão. O torneio ainda buscava consolidar sua importância internacional, enquanto diferentes países tentavam construir seleções competitivas em um cenário onde as regras de elegibilidade eram muito mais flexíveis do que são atualmente. Jogadores podiam defender seleções diferentes ao longo da carreira em circunstâncias específicas, e as federações frequentemente disputavam atletas que possuíam dupla nacionalidade.
Foi justamente nesse ambiente que a Itália iniciou um dos projetos esportivos mais ambiciosos da época.
Sob o governo de Benito Mussolini, o futebol passou a ocupar um papel estratégico dentro da propaganda fascista. O regime compreendia que grandes vitórias internacionais poderiam fortalecer a imagem de uma Itália moderna, disciplinada e poderosa. Organizar a Copa do Mundo de 1934 fazia parte dessa estratégia. O torneio seria uma vitrine para o país e também uma demonstração de força política diante da Europa.
Aproveitando as grandes diásporas italianas que ocorreram no final do século 19 e início do século 20, a seleção foi formada por grandes jogadores que nasceram e cresceram aqui na américa do sul.
Luís Monti talvez seja o caso mais emblemático. Nascido em Buenos Aires, filho de italianos, ele já havia disputado a final da primeira Copa do Mundo defendendo a Argentina em 1930. Poucos anos depois, aceitou o convite para representar a Itália e voltou a disputar uma final de Mundial, desta vez vestindo a camisa italiana.

Ao seu lado estavam outros argentinos descendentes de italianos, como Raimundo Orsi, Enrique Guaita e Attilio Demaría. Nenhum deles era visto como um estrangeiro improvisado para reforçar a equipe. Pelo contrário. O discurso oficial os apresentava como italianos que haviam nascido fora do território nacional, mas permaneciam ligados à pátria através do sangue e da família. Era uma visão profundamente alinhada à política nacionalista do fascismo, que utilizava a ideia de pertencimento étnico para ampliar simbolicamente os limites da própria nação.
A Itália conquistou aquela Copa em 1934 e repetiria o feito quatro anos depois, em 1938. Embora esses títulos sejam frequentemente analisados sob a perspectiva política do regime de Mussolini, eles também revelam algo menos discutido: uma das maiores seleções da primeira metade do século XX foi construída, em parte, por filhos da migração.

Essa não foi uma exceção italiana. Em diferentes regiões do mundo, seleções nacionais refletiam os grandes deslocamentos populacionais ocorridos nas décadas anteriores. O Uruguai bicampeão olímpico era formado por descendentes de espanhóis, italianos e franceses. A Argentina consolidava uma identidade futebolística construída por comunidades de imigrantes europeus. O próprio Brasil reunia atletas descendentes de portugueses, italianos, espanhóis, alemães, japoneses e sírio-libaneses, refletindo a formação social do país ao longo do início do século XX.
Existe uma tendência de imaginar que as seleções nacionais sempre representaram identidades homogêneas, como se cada país tivesse desenvolvido sua cultura futebolística de maneira isolada. A história mostra exatamente o contrário. O futebol sempre acompanhou os movimentos das pessoas. A circulação de trabalhadores, refugiados, comerciantes e famílias inteiras modificou não apenas a composição das sociedades, mas também a maneira como diferentes países passaram a jogar.

A Segunda Guerra Mundial alterou profundamente a maneira como pessoas circulavam pelo mundo. O esporte sempre acompanhou as transformações sociais antes mesmo que elas fossem percebidas pelos governos. Conforme bairros inteiros eram ocupados por famílias imigrantes, os campos de várzea, os torneios escolares e os clubes amadores começavam a refletir essa nova composição demográfica. O futebol, por exigir pouco equipamento e ocupar naturalmente os espaços públicos das cidades, tornou-se um dos primeiros ambientes onde essas comunidades construíram pertencimento.
A França talvez seja o exemplo mais evidente desse processo. Durante mais de um século, o país construiu um vasto império colonial que incluía Argélia, Marrocos, Tunísia, Senegal, Mali, Costa do Marfim, Camarões e diversos outros territórios africanos. Quando essas colônias conquistaram independência, sobretudo a partir dos anos 1950 e 1960, milhares de famílias migraram para cidades francesas em busca de trabalho. Paris, Marselha, Lyon e Lille passaram a concentrar comunidades extremamente diversas, alterando permanentemente a composição da sociedade francesa.
Essa transformação demorou alguns anos para aparecer dentro da seleção nacional, mas tornou-se impossível de ignorar a partir da década de 1980. Jean Tigana, nascido no Mali, Luis Fernandez, filho de espanhóis, Michel Platini, descendente de italianos, e Manuel Amoros, filho de espanhóis, já representavam uma França muito diferente daquela imaginada no início do século. O futebol começava a revelar uma sociedade multicultural antes mesmo que a política encontrasse respostas para essa nova realidade.

O auge dessa transformação aconteceu em 1998. Ao conquistar sua primeira Copa do Mundo, a França apresentou ao planeta uma seleção que rapidamente passou a simbolizar um país formado por diferentes histórias migratórias. Zinedine Zidane era filho de argelinos. Marcel Desailly havia nascido em Gana. Patrick Vieira nasceu no Senegal. Lilian Thuram nasceu em Guadalupe, território ultramarino francês no Caribe. Christian Karembeu vinha da Nova Caledônia, no Pacífico. Bixente Lizarazu era basco. A equipe foi celebrada pela imprensa como a "Black-Blanc-Beur", expressão que reunia negros, brancos e franceses descendentes de imigrantes do norte da África.
Os mesmos jogadores que foram celebrados em 1998 passaram a ser alvo de discursos xenófobos quando a seleção deixou de vencer. Em diferentes momentos das décadas seguintes, atletas descendentes de africanos e árabes voltaram a ser questionados sobre sua identidade, seu pertencimento e até sua lealdade ao país. O futebol revelava, na prática, que identidade nacional nunca foi um conceito estático. Ela muda junto com as transformações da própria sociedade.

Na Inglaterra, as grandes ondas migratórias vindas do Caribe após a Segunda Guerra Mundial alteraram profundamente cidades como Londres, Birmingham e Manchester. Décadas depois, filhos e netos dessas famílias passaram a ocupar espaço nas categorias de base dos clubes ingleses. John Barnes abriu caminhos importantes nos anos 1980. Depois vieram Rio Ferdinand, Ashley Cole, Raheem Sterling, Bukayo Saka, Jude Bellingham e inúmeros outros jogadores cuja trajetória acompanha diretamente a história das migrações britânicas.
No entanto, talvez a maior transformação da história recente do futebol não tenha acontecido dentro das seleções, mas nos clubes.
Em 1995, uma decisão judicial alterou completamente a estrutura do esporte profissional. O chamado Caso Bosman nasceu quando o jogador belga Jean-Marc Bosman contestou as regras que impediam sua transferência para outro clube após o término do contrato. A Corte de Justiça da União Europeia decidiu a seu favor, estabelecendo que jogadores cidadãos da União Europeia poderiam circular livremente entre clubes ao fim de seus vínculos, sem pagamento de taxas de transferência.

Foi justamente nesse contexto que o futebol europeu começou a produzir uma geração completamente diferente daquela vista nas décadas anteriores. Jogadores que falavam dois ou três idiomas, possuíam dupla nacionalidade e cresciam entre diferentes tradições culturais passaram a ocupar naturalmente o futebol profissional.
As seleções nacionais deixaram então de representar sociedades relativamente homogêneas para espelhar países construídos por décadas de deslocamentos populacionais, encontros culturais e novas formas de pertencimento.
E nenhuma seleção compreenderia tão bem essa transformação quanto Marrocos. Ao contrário da ideia de que seu sucesso surgiu de forma espontânea, o país passou décadas construindo uma política voltada justamente para sua diáspora espalhada pela Europa. Foi essa estratégia, desenvolvida muito antes da Copa de 2022, que mudaria definitivamente a maneira como o mundo passou a enxergar o futebol africano.

Quando Marrocos chegou às semifinais da Copa do Mundo de 2022, boa parte da cobertura internacional tratou a campanha como uma surpresa improvável. O resultado realmente foi histórico. Pela primeira vez, uma seleção africana alcançava essa fase do torneio. O que passou despercebido para muita gente é que aquela equipe não surgiu de forma espontânea. Ela era resultado de um projeto iniciado muitos anos antes, construído justamente sobre uma compreensão diferente do que significa representar um país.
Durante décadas, a Federação Marroquina percebeu que milhões de marroquinos viviam fora do território nacional. A federação passou a manter contato permanente com jogadores das categorias de base espalhados pelo continente europeu, enviando observadores, fortalecendo vínculos familiares e criando um ambiente em que vestir a camisa marroquina deixava de ser apenas uma escolha esportiva. Tornava-se também uma forma de preservar uma identidade construída dentro de casa.
Nenhum outro evento esportivo reúne milhões de pessoas em torno da ideia de representar um país. Quando um jogador entra em campo vestindo uma camisa nacional, ele também carrega debates sobre cidadania, pertencimento, memória e identidade. Por isso, as seleções frequentemente se transformam em espelhos das próprias sociedades.

Hoje, uma seleção nacional raramente corresponde à imagem homogênea que muitos imaginam existir. Ela representa sociedades construídas por sucessivas ondas de deslocamento humano, por famílias que cruzaram fronteiras, por crianças que cresceram falando mais de um idioma e por atletas que aprenderam desde cedo a conviver com diferentes referências culturais.
O futebol moderno nasceu viajando em navios mercantes, atravessou oceanos com trabalhadores britânicos, consolidou-se em bairros construídos por imigrantes italianos, cresceu entre comunidades formadas após o fim dos impérios coloniais e hoje continua se reinventando através das diásporas que conectam continentes inteiros.
Contar a história do futebol, portanto, nunca foi apenas contar a história de um esporte. Sempre foi, também, contar a história das pessoas que atravessaram fronteiras e transformaram o jogo junto com elas.




