Curadoria e construção de No Name Recycle
Em 2017, ainda no Guarujá, o fundador se depara com um bazar beneficente em frente à sobreloja onde morava e ali entende que o garimpo não é apenas sobre preço baixo ou acúmulo de peças, mas sobre circulação de história, acesso e descoberta. O primeiro boné, um Playboy dos anos 80 comprado sem dinheiro sobrando, funciona como ponto de partida para um processo que se aprofundaria nos anos seguintes.
Com o tempo, essa prática intuitiva se transforma em método. A No Name Recycle construiu sua identidade a partir de uma curadoria pessoal, onde o filtro principal é o uso real e o impacto visual da peça. Hoje, com um acervo majoritariamente importado, a loja ocupa um espaço específico dentro do mercado de brechós. Camisetas de turnês, filmes e bandas, jeans resistentes, workwear e sportstyle dos anos 90 se transformam em registros materiais de uma cultura que moldou o streetwear e a estética urbana contemporânea.
Cada peça carrega uma história que atravessa música, cinema, esporte e cotidiano, e o brechó atua como guardião dessas narrativas, impedindo que se percam no descarte ou na pasteurização estética. Conversamos com o Philip, fundador da loja sobre a construção, métodos, referências e o caminho a ser seguido através das roupas, confira a conversa completa abaixo.

NOTTHESAMO: Você poderia contar como surgiu a NoName Recycle e o que motivou a escolha de trabalhar com a linha de curadoria trabalhada hoje?
Philipi: Em meados de 2017, eu morava no Guarujá e estava naquele momento de incerteza, sem saber ao certo qual caminho seguir. Nós morávamos em uma sobreloja e, um dia, olhando pela janela, notei uma movimentação diferente no asilo que ficava em frente. Pela curiosidade, desci e me deparei com um bazar beneficente.
Aquele dia foi um marco. Mesmo sem dinheiro, garimpei um boné da Playboy dos anos 80 que tenho até hoje. Motivado pela possibilidade de encontrar peças únicas e acessíveis, comecei a frequentar outros lugares.
Quando vim para São Paulo e trabalhei em uma loja de roupas, minha paixão pelo vintage só aumentou. Usava minhas folgas para voltar ao mesmo bazar do meu primeiro garimpo. Com o tempo, fui acumulando acervo, estudando mais sobre o assunto e decidi criar a página. O nome 'No Name Recycle' surgiu justamente durante esse processo de busca por identidade.
N: Qual é o critério interno de curadoria que vocês adotam, o que faz uma peça ser “aceita” ou “descartada” para dentro do seu acervo?
P: A curadoria é um processo muito peculiar e intuitivo. Nunca parei para definir rigidamente um 'estilo' de venda. No início, meu acesso era limitado a peças nacionais, mas hoje, 99% do acervo é composto por peças importadas, o que acabou criando um segmento natural dentro da loja.
O critério final é o meu próprio olhar: eu trago o que eu usaria, o que faz meus olhos brilharem. Involuntariamente, o gosto pessoal acaba sendo o maior filtro de qualidade e estilo.

N: No mercado de brechós, muitos focam em volume ou preço baixo. Como vocês equilibram e enxergam as relações raridade, autenticidade e acessibilidade?
P: Desde o início, meu foco sempre foi a curadoria e não apenas o volume. A maioria das peças são 'oficiais', mas também valorizamos muito os bootlegs de época — como camisetas de turnês, bandas e filmes. Esses itens agregam valor tanto quanto os oficiais, pois são colecionáveis e possuem tiragens incertas, o que os torna raros.
Temos peças com 30 ou 40 anos em perfeito estado; isso é a definição de raridade e autenticidade. Já sobre a acessibilidade, procuro equilibrar criando ações e cupons para que todos possam ter uma peça No Name. Nosso diferencial é oferecer uma curadoria ampla, mas sem abrir mão do critério rigoroso com tecidos, modelagem e estado de conservação.
N: A curadoria muitas vezes exige uma leitura de época, de marca e de cultura. Como vocês garimpam e identificam peças que serão relevantes culturalmente?
P: Como a curadoria é guiada pelo gosto pessoal, ela é marcada por descobertas. Muitas vezes é sobre algo que me impacta visualmente no momento do garimpo. Porém, existe também um processo de aprendizado contínuo: muitas vezes encontro uma peça e vou pesquisar a fundo sua história.
No fim, parte muito do que eu sempre consumi musicalmente e culturalmente, unindo o conhecimento prévio com o que é esteticamente bonito.

N: Que papel vocês atribuem ao brechó hoje sobre sustentar uma memória cultural em torno de cada peça?
P: Eu vejo o brechó como um guardião dessas narrativas. A roupa vintage é um documento histórico tangível: quando alguém encontra uma camiseta de uma turnê de 30 anos atrás ou um item promocional de um filme cult, essa pessoa não está apenas vestindo um tecido, ela está reativando uma memória. Nosso papel é impedir que essas histórias se percam ou parem no lixo, servindo como uma ponte entre o passado e uma nova geração que, muitas vezes, não viveu aquela época, mas se conecta esteticamente e culturalmente com ela através da nossa curadoria.
N: Como vocês veem a interseção entre moda vintage/garimpo e estética da cultura urbana (skate, rap, streetwear)? Há intenção de conectar as peças ao contexto dessas subculturas?
P: Essa conexão é totalmente orgânica, porque o próprio streetwear bebe da fonte do que garimpamos. As peças que buscamos já nasceram dentro desses contextos: o workwear, o sportstyle dos anos 90, as camisetas de banda. Nossa intenção não é 'forçar' uma conexão, mas sim revelar a origem dela. Muitos clientes da loja vivem a cultura urbana (skate, rap, arte) e buscam na NoName justamente a autenticidade que as marcas atuais tentam replicar. Eles procuram peças que aliam a estética da época com a funcionalidade e o conforto essenciais para o dia a dia, como as modelagens oversized e o jeans resistente.

N: Há peças que vocês consideram “tesouros” do acervo, aquelas com história ou raridade especial. Poderia dar um exemplo e explicar por que ela representa bem a filosofia da loja?
P: No acervo, possuo uma jaqueta de uma turnê do Jorge Ben Jor, que ocorreu durante a Copa do Mundo de 1994. Essa peça foi criada sob medida na época, exclusivamente para cada integrante da banda.
O que a torna especial não é apenas a história, mas a raridade extrema, já que não existem outras disponíveis no mercado. Acredito que ela representa perfeitamente a No Name.

N: O que vocês esperam que o consumidor leve além da peça? Qual é a experiência que vocês pretendem fomentar com a NoName Recycle?
P: Espero passar informação. Quero que o cliente tenha uma experiência única com todo o nosso acervo, que vai além das roupas e inclui também objetos de decoração.
A ideia é proporcionar um ambiente totalmente vintage e nostálgico, servindo tanto para quem já sabe exatamente o que procura (o colecionador), quanto para quem busca algo inédito que nunca imaginou encontrar antes.
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