Dylan Audigier sobre moda, legado e o Brasil como parte de sua identidade
Antes de se tornar o nome de sua marca, Audigier já fazia parte da maneira como Dylan enxergava a moda. Filho de Christian Audigier, conhecido por sua atuação em marcas como Von Dutch e Ed Hardy, ele cresceu cercado por roupas, música e pessoas criativas. Nesse ambiente, acompanhou de perto tanto a dimensão pública do trabalho do pai quanto os hábitos e ensinamentos que ficaram dentro de casa. Entre suas principais lembranças está a de um homem que, apesar do sucesso, nunca se esqueceu de onde veio.

Com raízes francesas e brasileiras, Dylan encontrou na criação uma forma de reunir as referências que o acompanham desde a infância e as experiências que viveu por conta própria. A vontade de construir uma marca ganhou direção quando começou a trabalhar como modelo em Paris. Vestir as criações de outras pessoas despertou o desejo de desenvolver suas próprias peças e dar forma a uma linguagem que pudesse ser reconhecida para além do sobrenome.
As ruas, os grafismos marcantes e a relação entre moda e cultura atravessam esse processo. Ao citar referências como Banksy, Virgil e Kanye, Dylan aproxima o universo em que cresceu do olhar de sua geração. Do pai, carrega a confiança no instinto, a disposição para trabalhar e a ideia de que tudo começa com uma peça que alguém queira vestir. Ao mesmo tempo, entende que suas criações precisam conquistar espaço pelo que apresentam, mesmo entre quem desconhece a história da família.

Essa relação entre herança e autoria orienta a pop-up no ANEXO, em São Paulo, que reúne sua marca e uma linha do tempo dedicada à trajetória de Christian. Para Dylan, apresentar esse capítulo no Brasil também tem um significado pessoal, ligado à sua mãe e à identidade brasileira que deseja expressar no trabalho. Em uma conversa com o NOTTHESAMO, ele fala sobre as expectativas que acompanham seu nome, os caminhos que está escolhendo para a marca e a vontade de fazer com que Audigier passe a representar duas histórias. Confira abaixo:
NOTTHESAMO: Antes de falar sobre o sobrenome, quem é Dylan Audigier? Como a moda se tornou uma escolha sua e em que momento você percebeu que queria construir uma marca?
Dylan Audigier: Cresci cercado por roupas, música e pessoas criativas. Tenho raízes francesas e brasileiras e sempre me senti em casa nos dois países. Criar roupas não foi uma decisão repentina. Isso esteve ao meu redor desde que nasci e, naturalmente, se tornou minha forma de expressão. Percebi que queria ter minha própria marca quando comecei a trabalhar como modelo em Paris. Foi ali que entendi que não queria apenas vestir marcas de outras pessoas: queria criar a minha.

NTS: O público conhece Christian Audigier pelo impacto de marcas como Von Dutch e Ed Hardy. Você o conheceu também dentro de casa, como seu pai. Qual lembrança da relação de vocês revela um lado dele que poucas pessoas conhecem?
DA: As pessoas viam as festas, as celebridades, a energia. Em casa, ele era um homem humilde, que nunca se esqueceu de onde veio. É essa versão dele que carrego comigo, mais do que as manchetes.
NTS: A trajetória do seu pai passou pelo chão de loja, pelo trabalho com denim e pela construção de marcas de alcance global. Qual ensinamento dele mais aparece na maneira como você conduz seu próprio trabalho hoje?
DA: Ele começou do zero e nunca esperou por permissão. Trabalhou em uma loja, aprendeu a trabalhar com denim na prática e construiu tudo a partir daí. O que aprendi com isso foi a confiar no meu instinto e trabalhar mais do que qualquer um. Antes de qualquer coisa se tornar uma marca, existe uma peça de roupa que alguém precisa amar.

NTS: Assinar uma marca com o sobrenome Audigier significa carregar uma história que já tem significado para muita gente. Como você encontra espaço para construir sua própria linguagem criativa?
DA: Meu sobrenome abre portas, mas também traz grandes expectativas. Não tento copiar o que ele fez, nem fugir disso. Encaro esse legado como uma base. Minha linguagem vem do que vivi, das minhas experiências e do meu gosto, e as peças precisam se sustentar por si mesmas. Mesmo que alguém não conhecesse meu sobrenome, gostaria que essa pessoa gostasse das minhas criações.
NTS: Música, tatuagem e cultura das celebridades fizeram parte do universo que seu pai levou para a moda. Quais referências formam o seu universo e como elas aparecem nas peças que você está criando?
DA: Cresci com as mesmas coisas que ele amava, as ruas e os grafismos marcantes, mas vejo tudo isso pelo olhar de uma nova geração. Banksy, Virgil, Kanye, Dr. Varias. Acredito que minhas criações falam por si.

NTS: O que você considera mais relevante nesse legado para o presente e o que gostaria de levar adiante sob uma nova perspectiva?
DA: A atitude. Ele criava roupas chamativas, divertidas e destemidas, e entendia que moda é cultura, não apenas produto. Acredito que isso continua sendo verdade hoje. Quero levar esse espírito adiante, mas com a minha perspectiva, a minha personalidade, o meu jeito de criar e, claro, um toque mais brazuca.
NTS: A pop-up no ANEXO vai apresentar sua marca ao lado de uma linha do tempo da trajetória de Christian. Por que reunir essas duas histórias agora e o que você quer que o público brasileiro descubra sobre você por meio das suas peças?
DA: Fez sentido contar as duas histórias no mesmo espaço. A linha do tempo mostra de onde tudo veio: da infância sem recursos em Avignon à ascensão com a Von Dutch e ao sucesso com a Ed Hardy. E termina com o próximo capítulo. O meu capítulo. Fazer esse lançamento em São Paulo é importante para mim por causa da minha mãe e do meu lado brasileiro. Quero que as pessoas aqui vejam que não sou apenas “o filho do Christian”. Tenho minha própria voz, e o Brasil faz parte dela.
NTS: Olhando para o futuro, o que você quer construir com a marca e quais decisões já está tomando nessa direção? Daqui a alguns anos, pelo que gostaria que o trabalho de Dylan Audigier fosse reconhecido?
DA: Quero transformar a “Dylan Audigier” em uma marca global que dure para sempre, sem abrir mão de quem sou. As decisões que estou tomando agora incluem produzir nos Estados Unidos e na Europa, manter alguns lançamentos limitados e escolher com cuidado com quem trabalho. Daqui a alguns anos, gostaria que o nome Audigier representasse duas histórias, não apenas uma.




