Gianni Infantino, a “venda” da Copa e o problema para o futuro do futebol

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O noticiário esportivo, principalmente europeu, recebeu uma péssima notícia ainda na manhã de 28 de junho. Gianni Infantino, atual presidente da FIFA e persona polêmica nas últimas duas Copas por suas decisões um tanto quanto tendenciosas, estaria considerando vender ações da Copa do Mundo para investidores privados. E como se não bastasse essa notícia, um complemento: esse grupo de investidores seriam pessoas relacionadas a família de Trump, pessoa próxima a Infantino e que causa diversas polêmicas envolvendo não só o esporte, olhando para o tratado bem comum que é o futebol, apenas como mais uma parte para autopromoção e posicionamento de suas políticas.

Segundo a reportagem do The Times, Infantino venderia parte de ações para um grupo de investidores que sequer tem relação com o esporte. O objetivo no entanto seria aumentar a receita da FIFA, uma empresa tida como sem fins lucrativos, e a do seu próprio momento como presidente, que tem mandato até 2027.

Para isso, a proposta deverá entrar para votação envolvendo as 211 entidades hoje associadas à FIFA. O plano é cada uma das entidades receber US$20 milhões imediatos e aumentar suas receitas no futuro, segundo um comunicado divulgado pela entidade, algo interessante para toda entidade que visa balancear seus gastos para os próximos ciclos de Copa, investimentos internos, etc. Após aceitado, o acordo seria para a holding Thrive Capital liderar os acionistas.

Uma empresa talvez desconhecida por parte do público brasileiro, mas que movimenta milhões e milhões de doláres a cada semana, tem uma ligação minimamente curiosa: A holding de capital permanente ligada foi lançada em abril deste ano pelo bilionário Joshua Kushner, irmão do genro de Trump, com quem mantém contato. O nome de Kushner seria o favorito para liderar o grupo de investidores.

Após o anúncio, a UEFA (União das Associações Europeias de Futebol) emitiu uma nota oficial se posicionando absolutamente contra o atual posicionamento da FIFA e a tal proposta anunciada para elevar o nível mundial do esporte. O órgão máximo do futebol europeu já havia apresentado pautas durante a Copa, inclusive com propostas em apoiar de maneira mais rígida seu candidato em uma próxima eleição.

A nota emitida diz: “Isso cruza uma linha que as instituições governamentais do futebol nunca deveriam cruzar. A UEFA leva isso extremamente a sério. Toda Associação Nacional de Futebol também deveria. Todo stakeholder também: ligas, clubes, jogadores, torcedores, governos e todos que se importam com o futuro do esporte.

A alma e a governança do futebol não são ativos para negociar — especialmente com zero transparência quanto a quem ganha financeiramente. Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à Fifa vendê-lo.” 

Ainda na tarde do dia 28, países europeus ameaçaram boicotar à Copa do Mundo caso o plano vá para frente, segundo informações da Sky Sports. O grande problema para o mundo do futebol não são as cifras, e sim a idoneidade daqueles que supostamente iriam gerir uma Copa. 

Com o elemento do investimento, a necessidade de gerar cada vez mais lucro se torna inevitável, e esse fator foi muito discutido nos últimos meses, quando vimos momentos como a criação de paradas técnicas a cada 25 minutos, dando uma cara de NBA ao futebol, decisão tomada não pensada apenas no bem dos jogadores, mas claramente em gerar mais espaços para marcas e publicidades, tirando o jogo de seu padrão comum e elevando os custos para por exemplo, assistir uma partida no estádio, com a supervalorização de todos os preços. Além disso, as discussões sobre possíveis favorecimentos e/ou escolhas que priorizassem seleções, jogos e jogadores estariam à tona em toda rodada.

O uso do dinheiro, nessa circunstância, passa a não mais proteger as tradições do futebol e contribui para consolidar o posicionamento da FIFA como uma entidade que se envolveu numa disputa direta para se afirmar como uma instituição de grande apelo e relevância política, para além das decisões que já articulam futebol e política.

A UEFA como exemplo, anos atrás, colocou em pauta a “Super Liga dos Campeões”, que a grosso modo priorizaria grandes confrontos, criaria uma liga unificada dos gigantes clubes e dificultaria a evolução em mercados menores. O mesmo, de certo modo, ocorre com a Nations League, competição entre seleções europeias em meio às “Datas Fifa”, que extinguiu as possibilidades de confrontos amistosos entre seleções europeias e de outros cantos do mundo.

Conhecemos o futebol de um jeito, e ele está se transformando a partir das escolhas daqueles que basicamente o detém. Criar uma empresa para cuidar de investimentos na Copa do Mundo não acabaria com os problemas no desenvolvimento das bases, estádios e automaticamente, na melhora estrutural e da beleza do jogo. Apenas abriria espaço para mais pessoas que não se preocupam com o que conhecemos sobre a beleza do esporte, lucrarem, transformarem para pior e carregarem o futebol para um lugar onde ele nunca teve de estar.

Infantino, nesta quarta-feira, 29 de julho, estabeleceu um prazo de 53 dias para que as 211 associações aprovarem o plano. Ao contrário, caso as federações rejeitem a proposta, perderão até 75% do financiamento previsto no novo modelo da entidade.