Três diferentes olhares sobre Cartel Phoebus de Quadro Creations.
A coleção Cartel Phoebus, da Quadro Creations, consolidou-se como um manifesto estético de resistência à velocidade do consumo contemporâneo e à obsolescência programada. Após o marcante desfile e lançamento da coleção, em vez de concentrar o trabalho em um único evento, os diretores criativos Lucas Borges e Leticia Ivone optaram por um desdobramento contínuo ao longo do semestre. Lucas nos explicou que essa estratégia nasceu porque "o tema se mostrou muito mais profundo" do que previam, envolvendo a relação entre humano e máquina.
O ciclo da coleção encontrou seu ápice no cinema, em filme dirigido por Bruno Beserra e filmado em um planetário, o vídeo traduziu a lógica industrial ao contrapor modelos mecânicos à presença sutil do músico Pedro Mizutani. Bruno nos revelou que moldou essa atmosfera na atuação e nas dinâmicas de cena, para contrastar com o tom despretensioso de Pedro.
A costura final do projeto se deu pela trilha e pela narração de Pedro Mizutani, a partir de suas vivências e visões de mundo. Essa autenticidade trouxe o respiro humano que a narrativa pedia, unindo as inquietações do músico com o propósito da Quadro Creations. Conversamos com o trio que executou o filme, para compreender as complexidades tanto nas gravações, quanto em complementar cada lado de uma história montada meses atrás pela Quadro e sua equipe. Confira a conversa disponível abaixo:
NOTTHESAMO: Cartel Phoebus foi apresentada em diferentes etapas ao longo do semestre. Por que vocês decidiram desenvolver essa investigação de forma contínua, em vez de concentrá-la em um único lançamento?
Lucas Borges: Eu tenho duas respostas para essa pergunta.
A primeira é que o tema se mostrou muito mais profundo do que havíamos percebido quando iniciamos o desenvolvimento da coleção. A relação entre humano e máquina e a questão mais filosófica da reflexão sobre a impermanência das coisas fizeram com que o processo de criação fosse tão fluido que, somadas às novas linhas, como Womenswear e calçados, tivemos produtos suficientes para um semestre inteiro de lançamentos. Pessoalmente, achei muito melhor para o desenvolvimento do storytelling, além de nos permitir construir uma coleção completa, head-to-toe.
A segunda resposta é que, com o avanço das fast fashions no Brasil, a população passa a ter um leque muito maior de opções na hora de escolher onde investir. Pudemos notar uma mudança significativa no comportamento dos clientes, o que é natural com a entrada e a criação de grandes redes, como aconteceu na Europa, e isso tem seus prós e contras.
Enquanto QC, somos uma empresa pequena, e a vantagem que temos é a agilidade para ajustar a direção conforme a maré, mantendo-nos fiéis aos nossos valores de autoria, funcionalidade e permanência. Considerando que não temos como concorrer com grandes empresas, nosso triunfo está cada vez mais no produto autêntico e corajoso, bem como na forma como o comercializamos.
Dividir a coleção em diferentes porções é, no fim das contas, uma decisão estratégica. Temos tempo para acompanhar, ao vivo, as necessidades dos nossos clientes e nos adaptar para oferecer a melhor experiência possível.

NTS: Depois de inaugurar o primeiro desfile da Quadro, a coleção encerra seu ciclo com um filme. O que a linguagem audiovisual permitiu comunicar sobre Cartel Phoebus que as roupas e a passarela, sozinhas, não conseguiriam?
LB: Com certeza, foi a melhor maneira de fechar esse ciclo. O Bruno surgiu com o convite e a ideia-base e, graças à Stink e ao seu supertime, em duas semanas já estávamos gravando.
Na nossa primeira troca de ideias, já sabíamos que teríamos que chamar o Pedro para contar essa história, e eu não poderia ser mais grato a ele por ter aceitado o convite para ser a voz deste capítulo.
Sou fã do seu trabalho desde antes de nos conhecermos e, durante esse processo, passei a admirar ainda mais a pessoa que ele é e o seu papel importantíssimo como artista contemporâneo brasileiro.
NTS: O filme contrapõe movimentos mecânicos e repetitivos à presença delicada de Pedro. Como vocês construíram visualmente esse conflito entre a lógica industrial e uma percepção mais humana do tempo?
Bruno Beserra: A construção da oposição entre o Mizutani, como uma representação mais delicada e sutil, e os modelos, mecânicos e e repetitivos, se deu, majoritariamente, no acting e nas dinâmicas de cena. Coreografia em fila, expressão facial vazia, a câmera se comportando de uma maneira leve, estabilizada, o tom da voz de Pedro mais despretensioso e menos encenado. Desde o momento que o Lucas trouxe, como premissa do projeto, que a obsolescência programada era um conceito fundamental na construção das roupas, toda decisão, seja ela de cinematografia, de interpretação ou de composição, passava por isso. Minha cabeça, minhas sinapses, meus pensamentos sempre estavam nesse conceito.

NTS: Arquitetura brutalista, luz, movimentos corporais e repetição são elementos centrais do filme. Como cada uma dessas escolhas ajudou a tornar visível uma discussão abstrata como a obsolescência programada?
BB: Eu queria filmar em um ambiente grandioso, porque isso poderia fortalecer a percepção industrial com os modelos; o motor das minhas ideias passa muito pelo espaço. Filmamos em um planetário; a cor verde-cobre, um tanto quanto metalizada, predomina no olhar. Isso me encantou, porque a coleção Grey Label possui uma predominância de cinza, preto e branco, e foi uma maneira de sublinhar as peças utilizando o cenário. Por outro lado, o olhar de Mizutani era muito importante: criar cenas que pudessem potencializar a voz numa perspectiva de reflexão, de pensamento, de confabular ou construir algo que ainda não está concluído. Com o voice-over, gravamos Mizutani numa conversa de aproximadamente uma hora, perpassando pela infância dele, pela forma como ele se enxerga enquanto artista, a importância do outro, e o que o move a continuar criando. Gosto de pensar em cada detalhe e ir moldando cada aresta desse polígono.
NTS: No filme, você aparece como uma espécie de respiro diante dos corpos mecânicos e dos movimentos repetitivos. Como foi encontrar essa presença mais delicada e contemplativa dentro da narrativa?
Pedro Mizutani: Acho que é só o meu jeito de ser. Tenho bastante dificuldade em performar ou atuar de forma mais expansiva assim. Sinto que, com a câmera e o registro digital, eu posso só ser eu, e isso acaba transparecendo para quem assiste.

NTS: Sua música é marcada por composições intimistas e pela construção de texturas. De que maneira essa sensibilidade se aproximou do universo da Quadro e do conceito de Cartel Phoebus?
PM: Eu vejo a sensibilidade como uma forma intuitiva e complexa de interpretar a realidade e, consequentemente, de existir nela. Acho que existe uma correspondência entre o que eu tento fazer na minha música e o que o Lucas faz com a Quadro. Não necessariamente na linguagem, mas na maneira de olhar para o mundo.
Quando conversamos sobre o projeto, senti que existiam inquietações parecidas. Uma tentativa de entender o que permanece para além do imediato, do consumo e da lógica de produzir e descartar. Acho que foi isso que me aproximou da Quadro e da coleção, uma espécie de reconhecimento. Sinto que a gente compartilha certas perguntas sobre o mundo, e isso acabou aparecendo de forma natural no processo.
NTS: O projeto foi construído de maneira colaborativa entre moda, cinema e música. Em que momento vocês perceberam que essas três linguagens estavam realmente formando uma mesma obra, e não apenas coexistindo dentro do filme?
Bruno: O momento que me dei conta de que tudo estava se dialogando de verdade, provavelmente foi uns quatro dias antes de filmarmos, quando, no meu escritório, eu tinha meus post its colados na parede (àquela altura, mais de 50, certamente), e eu conseguia visualizar como uma coisa motivava a outra. Como diretor, eu acredito e valorizo muito o processo criativo anterior ao set. Estudar, relacionar, pensar, estudar mais um pouco, pensar, e se questionar. É bastante intenso, horas e horas, mas se não for assim, pra mim meio que perde o sentido. A partir disso, seja no set, no estúdio gravando a locução de Mizutani, ou no edit, tudo passou a confluir como deveria ser.
Lucas: Acho que percebemos isso quando ficou claro que nenhuma das três linguagens estava ali apenas para ilustrar a outra. As roupas não funcionavam simplesmente como figurino, a música não era apenas uma trilha e o cinema não era somente um meio de registrar a coleção. Cada elemento passou a interferir diretamente na forma como a história seria contada de maneira igual.
O Pedro trouxe uma dimensão humana e emocional para questões que já estavam presentes em Cartel Phoebus, como a impermanência, a obsolescência e a relação entre o indivíduo e o tempo. O Bruno e toda a equipe transformaram esses conceitos em atmosfera, imagem e narrativa, enquanto as roupas davam materialidade a esse universo.
Pedro: Confesso que a gravação foi um pouco assustadora para mim, porque tinha bastante gente, muitos equipamentos, e eu nunca tinha vivido uma produção assim. Então, durante as filmagens eu estava mais tentando acompanhar. Só quando encontrei o Bruno pra gravar os voice overs e ele me mostrou uma versão mais crua do filme que eu percebi como tudo tava se encaixando.




