O universo artístico entre a música e dança de Kelly Anna
Criada em meio ao mundo artístico da dança e das pinturas, a artista britânica Kelly Anna transformou os diferentes ritmos tanto musicais quanto do corpo em sua principal ferramenta de trabalho. Suas obras, marcadas por silhuetas e cores ultra vibrantes, capturam a energia pura do movimento humano. Com sua assinatura visual, Kelly estampou coleções da Nike até figurinos de palco da cantora Beyoncé.
No papel, essa energia musical se traduz em uma busca constante por texturas e experimentos. Kelly cria suas composições com o uso do carvão deitado para criar traços grossos e aproveitando do excesso de textura, além da utilização da tinta pastel criando traços na folha. Ela busca descobrir o que acontece quando força uma ferramenta a ir além daquilo para o que foi desenhada, transformando o erro em parte do trabalho.

Conversamos com a artista para compreender a intimidade de seu processo criativo, revelando como estados profundos de imersão e ritmos repetitivos guiam suas escolhas. Ela nos contou sobre a transição orgânica de suas telas do esporte para a música e como o retorno ao analógico pode ser a única resposta possível ao avanço. Confira esse papo completo abaixo:
NOTTHESAMO: De onde veio originalmente a sua paixão e entusiasmo por representar o movimento em forma de arte?
Anna Kelly: Eu cresci como dançarina de salão e de dança latina. Ambos os meus pais eram dançarinos, e foi assim que eles se conheceram, na verdade. Meu pai era professor de dança de salão e latina, e minha mãe era aluna dele. Eles acabaram tendo quatro filhos, e todos nós começamos a dançar a partir dos três anos de idade. Meu pai também era artista plástico. Ele amava desenhar paisagens e fazer desenhos de modelo vivo, e foi a pessoa que me ensinou a capturar a figura humana desde muito jovem.
Eu costumava levar meu bloco de desenho para as competições de dança e esboçava os dançarinos se movimentando pelo salão. Acho que foi aí que realmente aprendi a capturar o movimento. Sempre adorei desenhar de forma rápida e instintiva.
Meu pai me ensinou a olhar para cima e focar no meu tema, em vez de ficar encarando o papel lá embaixo. Ele literalmente tirava o papel de mim se eu ficasse olhando para ele por muito tempo e me dizia para começar de novo! O tema era sempre mais importante do que o desenho em si. Então, aprendi desde muito cedo a confiar nos meus instintos e a capturar rapidamente o que estava acontecendo na minha frente. Essa forma de trabalhar permanece comigo desde então.

NTS: Sua paleta de cores é incrivelmente vibrante, e você tem até o seu próprio “Bleu Kelly Anna” com a Le Franc Bourgeois. Como você aborda suas combinações de cores e que tipo de sentimento ou energia busca transmitir através dessas escolhas?
AK: A cor sempre foi importante para mim. Eu a vejo como uma linguagem que todos podem entender e à qual podem responder. É uma forma poderosa de comunicar emoção e energia.
Eu me sinto atraída por cores brilhantes e estou constantemente colecionando coisas coloridas do mundo todo. Minha casa também é muito colorida; eu definitivamente me cerco de cores quando estou trabalhando.
Estou sempre pensando em como cores diferentes conversam entre si e que tipo de energia elas criam. Às vezes quero que algo pareça divertido e alegre; outras vezes, ousado e poderoso. A cor pode mudar completamente a sensação de uma obra.
NTS: Em que momento você expandiu seu foco dos esportes para a criação de arte que fala sobre música? O que inspirou essa escolha?
AK: Eu sempre amei música. Na verdade, é o que me leva aos meus estados de fluxo (flow) mais profundos quando estou trabalhando.
Muitas vezes, fico ouvindo a mesma música repetidamente por dois dias. Quando estou realmente nesse estado de imersão, acho difícil ouvir músicas diferentes porque preciso exatamente daquele mesmo ritmo e energia. Se estou ouvindo uma faixa de jazz, por exemplo, essa mesma faixa vai tocar repetidas vezes enquanto trabalho. A música é muito terapêutica para mim. Ajuda a acalmar minha mente que é muito agitada e me dá um ritmo para trabalhar. Também acho que é como me formei como dançarina. Você ouvia a mesma música repetidamente para aprender a coreografia. O movimento e a música estão conectados, então passar do desenho do movimento através do esporte e da dança para a captura da energia da música pareceu uma evolução natural para o meu trabalho. Quase nem pareceu algo novo para mim, mas, pela resposta que tenho recebido, muitas pessoas novas de todo o mundo começaram a ver meu trabalho através da música, o que acho muito empolgante.

NTS: O que mais te entusiasma no processo de construção e desenvolvimento de cada obra de arte?
AK: Sempre adorei experimentar. Para mim, a parte mais emocionante é descobrir o que um material ou ferramenta pode fazer e depois levá-lo a um limite para o qual não foi necessariamente projetado.
Adoro testar novos materiais, encontrar ferramentas diferentes e experimentar novas formas de usá-los.
Por exemplo, há cerca de cinco anos comecei a usar o carvão de lado, arrastando-o longitudinalmente pelo papel. Adorei o grão e a textura que isso criava, e trabalhei com essa técnica por alguns anos. Mas, com o tempo, quis mais textura, então comecei a experimentar outros materiais até encontrar o pastel oleoso.
Tirei o invólucro e comecei a usar o pastel de lado também, e me apaixonei completamente pela textura que ele criava. Depois, comecei a fazer pequenos entalhes nos pastéis para criar traços minúsculos na própria arte.
Estou constantemente brincando com as ferramentas que tenho e tentando encontrar novas maneiras de fazer marcas. Essa é a parte mais emocionante do processo para mim.
Tentei deliberadamente me afastar da tela do laptop e, em vez disso, voltar a brincar com materiais brutos. Há algo realmente empolgante em descobrir o que acontece quando suas mãos, um material e um pedaço de papel interagem.

NTS: Como você enxerga a sua arte física e expressiva contrastando com a direção atual da arte e do design, especialmente com o surgimento e o avanço das tecnologias de IA?
AK: Eu definitivamente me sinto rebelando contra isso. Quanto mais a tecnologia se desenvolve, mais me pego querendo voltar aos materiais mais básicos e brutos.
Estou cada vez mais atraída por coisas que foram claramente feitas por mãos e mentes humanas. Acho que, na verdade, é um momento muito empolgante para ser artista, porque temos a oportunidade de questionar quanta tecnologia queremos usar e, talvez, redescobrir os materiais e processos que vieram antes dela.
Existe algo incrivelmente especial em pegar um pedaço de carvão e fazer algo com as próprias mãos. Você pode sentir o material, ver as marcas, pode cometer um erro e depois reagir a ele. O processo é tangível.
As pessoas costumam dizer: "A IA jamais conseguiria fazer isso" quando me veem trabalhando. E, de certa forma, é exatamente assim que me sinto a respeito. A IA jamais poderia fazer o meu trabalho porque nem eu mesma sei qual será o meu próximo traço.
Essa imprevisibilidade é uma parte fundamental do que faço. Estou respondendo ao material, ao movimento e à música, e deixando a obra evoluir enquanto a crio. Para mim, é nessa imprevisibilidade humana que a mágica acontece.





