Tijolo Records: sete anos construindo fora do centro

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Para Akilez, a Tijolo começou antes mesmo de existir como selo. Imigrante latino vivendo em Nova York, ele descreve um sentimento inicial de invisibilidade e um período em que chegou a decidir que não trabalharia mais com música. A distância, no entanto, não apagou uma relação construída ao longo de décadas. Da necessidade de criar um espaço onde pudesse exercer sua própria visão artística e reunir pessoas capazes de se expressar fora das convenções nasceu, em 2019, no Brooklyn, a Tijolo.

Sete anos depois, chamar a Tijolo apenas de gravadora já não dá conta do projeto. Lançamentos musicais convivem com festas, moda, conteúdo e com o Tijolo Bus, ônibus escolar transformado em estúdio e plataforma itinerante que leva artistas pelas ruas de Nova York. Essa expansão, porém, não aconteceu como uma mudança repentina de direção. Akilez conta que a ideia de construir algo mais amplo existia desde o início, mas que cada nova frente foi surgindo no ritmo permitido pelo próprio projeto, um processo de longo prazo baseado em experimentação, adaptação e leitura do momento.

Há também uma geografia específica por trás dessa história. Entre Nova York e São Paulo, a identidade da Tijolo foi moldada menos pelos centros culturais dessas cidades do que por suas bordas. Akilez diz que sua vivência nas duas metrópoles sempre esteve ligada à dificuldade, à periferia e ao não óbvio. É justamente desse ponto de vista que surgem a curadoria musical, as relações estabelecidas com os artistas e a ideia de comunidade que atravessa o selo. Para RHR, que se aproximou da Tijolo em 2020, essa experiência anterior de Akilez dentro da cultura de rua paulistana se traduz em cuidado, colaboração e disposição para apoiar os artistas de maneira que nem sempre encontra paralelo em estruturas maiores da indústria.

Visualmente, essa posição também é assumida. Naiche, responsável pela direção de arte, encontra na experiência da imigração, no hardcore, no punk e em um imaginário “violento, distópico, explícito e periférico” os elementos que mantêm coesas as diferentes manifestações da Tijolo. A construção nunca buscou apagar a condição de quem chega de fora ou suavizar seus códigos para se adequar: o que poderia ser lido como ruído se torna linguagem.

Essa postura ajuda a explicar por que a Tijolo entende independência menos como uma categoria de mercado e mais como uma forma de atuação. Nas falas de RHR e Cesrv, selos independentes aparecem como estruturas fundamentais para lançar artistas, formar público, construir comportamento e abrir espaço para sonoridades que ainda encontram pouca entrada nos circuitos tradicionais. Ao mesmo tempo, eles lembram que essa responsabilidade não pode existir apenas dentro dos selos: festivais, clubes, curadores, público e artistas também participam da construção de um ecossistema cultural mais aberto e menos concentrado nos mesmos nomes e eixos.

Agora, depois de iniciar as comemorações de seus sete anos em Nova York, a Tijolo traz essa celebração para São Paulo. O momento permite observar o que permaneceu ao longo desse percurso: a recusa ao caminho mais óbvio, a conexão com a rua, a construção coletiva e uma ideia que Akilez resume de maneira particularmente simples quando questionado sobre a finalidade do Tijolo Bus: “É paixão.”

O NOTTHESAMO conversou com Akilez, Naiche, RHR e Cesrv para entender como essa visão foi sendo materializada, tijolo por tijolo, e quais estruturas eles ainda querem construir a partir daqui. Confira abaixo:


Fundador - Akilez @sixx4sixx

NOTTHESAMO: A Tijolo nasceu em 2019, no Brooklyn, com a proposta de aproximar artistas da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa. Qual era a ausência que você enxergava na cena naquele momento e que levou à criação do selo?

Akilez: Primeiramente, como imigrante latino, o sentimento inicial era de invisibilidade (daí a logo do fantasma sarcástico). Depois de um ponto de mutação muito grande, pessoal e artisticamente, eu tinha decidido não mais trabalhar com música (cheguei a ficar uns 5 meses sem dar play, por conta própria, em algo). Só ouvia de fora pra dentro.

Eu sempre classifico isso, ironicamente, como uma “maldição” (no bom sentido da palavra, se isso é possível). Pois, mesmo eu decidindo me distanciar, eu acordava sempre pensando em como criar algo em que eu pudesse exercer minha forma criativa sem perder esse tipo de relação específica que tenho com a música (contracultura). Desse sentimento surgiu a ideia de ter um selo.

Onde eu pudesse agregar pessoas e valores que, de alguma forma original, pudessem se expressar nele.


NTS: Em sete anos, a Tijolo deixou de funcionar apenas como um selo musical e passou a atuar também com festas, moda, conteúdo e projetos itinerantes. Em que momento você entendeu que ela precisava se tornar uma plataforma cultural mais ampla?

A: Eu já tinha essa ideia desde o início, mas, como o próprio nome sugere construção, a minha experiência na música de 30 anos já estava solidificada na ideia de que coisas sólidas são a longo prazo. Eu fui desenvolvendo cada passo de acordo com a fluidez que o momento exigia (experimentação).

Com a vinda da pandemia, o foco no lançamento de discos (vinil) era algo mais palpável, pois, além de ser um processo individual, era uma forma de eu dar suporte a pessoas com quem eu já tinha uma conexão musical e dar um suporte naquele momento em que a classe artística estava sem horizonte.

Mesmo sendo uma página ruim na nossa história, conseguimos extrair coisas boas disso.


NTS: O próprio nome “Tijolo” sugere uma construção feita aos poucos, a partir de diferentes partes. O que foi sendo construído, tijolo por tijolo, ao longo desses sete anos?

A: Creio que a realização de uma visão, pois, uma ideia como ponto de partida, o que diferencia é exatamente a realização dela. E, para isso, exige muitas habilidades que estão fora do campo profissional: sensibilidade, paciência, saber lidar com as frustrações e com o tempo.

E saber a hora de mudar de direção, pois nem sempre a realização de algo tem o rosto conhecido da primeira imagem. É necessário saber ler o momento e agir. Pois uma ideia genial não executada e guardada no campo mental é só uma ideia.

A realização é o que faz a diferença e a torna bem-sucedida. Pois fama não tem nada a ver com sucesso.


NTS: A Tijolo surgiu em Nova York, mas mantém uma relação muito forte com o Brasil e, especialmente, com São Paulo. Como esse trânsito entre as duas cidades moldou a identidade e a curadoria do selo?

A: De forma natural, focado na minha vivência nas duas cidades. Pois, em ambas, eu circulei pela borda, pela dificuldade, pela periferia. Quero dizer que meu olhar sempre parte desse princípio: fora do centro!

É um caminho mais árduo flertar com o não óbvio, tem seu preço. Mas, dentro de mim, não conheço outra coisa que ressoa tão bem com as necessidades da minha existência.


NTS: O Tijolo Bus transforma um ônibus escolar em estúdio, palco e plataforma de mídia em movimento pelas ruas de Nova York. Como surgiu a ideia de tirar a música dos espaços tradicionais e colocá-la em circulação pela cidade?

A: Pra mim, é uma extensão da criação do selo. Como consigo criar algo em que eu possa ter a autonomia da criação artística, sendo um imigrante dentro de uma cultura que é diferente da minha, sem eu me perder de quem sou?

O Bus foi uma saída muito eficaz, pois faz esse intercâmbio acontecer de forma natural e real. Sem os enfeites necessários para se ter uma carreira artística. Juntou duas coisas de que gosto muito: vida real e música.

Lembrei agora de uma pergunta de uma DJ que passou pelo Bus e me perguntou:

— Qual é a finalidade disso? Quem mantém? É uma agência? É um business?

Eu respondi:

— É paixão!


NTS: A comemoração dos sete anos começou em Nova York e chega agora a São Paulo. O que essa passagem entre as duas cidades representa sobre o momento atual da Tijolo?

A: Para mim, é a sincronia de um sonho com muito trabalho para torná-lo realidade. O nome Tijolo não é por acaso. Eu me considero mais um hard worker que artista. Trabalho desde os 12 anos.

A música entrou na minha vida cedo como forma de salvação. Eu sei, vai soar romântico e talvez até meio brega. Mas é a minha realidade e relação com ela. E minhas relações artísticas são fundadas nesse ponto.

Já disse não pra muita coisa que pode ser considerada sucesso. E, quanto mais o tempo passa, percebo que eu sempre disse não para a fama.

Por isso me identifiquei tanto no fantasma com um Tijolo.



Diretor de Arte - Naiche @naiche.cc

NOTTHESAMO: A Tijolo reúne selo musical, festas, um ônibus studio itinerante e uma marca de roupas. Como você constrói uma identidade visual capaz de conectar todas essas frentes sem fazer com que elas pareçam projetos separados?

Naiche: Coerência visual é a chave, baseada no fato de a Tijolo ter uma conexão forte com “imigração”: viver longe de casa e não esquecer a raiz.

Nós somos “intrusos”, mal vistos, mal-educados e sujos pela visão do outro. Em vez de tentar nos limpar, nós abraçamos essa ideia, e a parte visual está englobada nisso.


NTS: O nome Tijolo remete a estrutura, repetição e construção. Como essa ideia aparece, de forma direta ou indireta, nas escolhas gráficas e na linguagem visual do projeto?

N: Visualmente, só pela frase “tijolo por tijolo”. Quando crio pra Tijolo, eu imagino um mundo violento, distópico, explícito e periférico. Somos filhos desse caos tentando construir algo no meio dele. Acho que isso já diz muito.


NTS: Ao olhar para os materiais produzidos desde 2019, quais elementos visuais permaneceram e quais precisaram mudar para acompanhar o crescimento do projeto?

N: Hardcore/Punk (nunca esquecer). Essa é minha base visual. Não sentimos necessidade de mudança ainda, até porque, modéstia à parte, vejo que criei algo visual que hoje em dia é usado como referência por vários outros meios. Então, time que tá ganhando não se mexe muito.

PS: Pra não mentir, dos primeiros cartazes pra cá eu tive que ajustar um pouco as fontes, porque era foda ler o que estava escrito em alguns, haha.


DJ / Produtor do selo - RHR @rhrmusiq

NOTTHESAMO: Como você se aproximou da Tijolo e o que fez perceber que existia uma afinidade entre o seu trabalho e o universo do selo?

RHR: O Aquiles me deu um salve em 2020, se eu não me engano, falando que tinha vontade de fazer um trabalho comigo. Aí veio a pandemia, eu tava bem zoado de grana, sem trampar muito, e naquele momento ele foi uma pessoa importante no processo de mudança que eu tava vivendo. Ele investiu no meu primeiro lançamento pela Tijolo e acreditou no trabalho num momento bem delicado pra mim.
Acho que o fato dele ter vivido vários momentos e movimentos da cultura de rua em São Paulo faz muita diferença. Esse senso de comunidade, a construção crua e a afinidade do selo com a arte periférica e de rua são coisas com as quais eu me identifico. Então essa conexão e essa busca acabam acontecendo de uma forma muito natural.


NTS: Para você, o que diferencia a Tijolo de outros selos ou coletivos independentes com os quais já se relacionou?

RHR: O Aquiles ter feito parte de vários ciclos da arte periférica e de rua de São Paulo é uma parada que faz diferença, com isso o selo é muito voltado para relações de comunidade, colaboração e cuidado com os artistas
Mesmo em selos ligados a gravadoras majors, talvez você não veja tanto empenho e tanta disposição para ajudar quanto o Aquiles tem com quem trabalha com ele. As ideias, a visão e os sonhos que ele tem sobre o rolê como um todo são um motor muito bonito. Ele tá sempre pensando no próximo passo a partir de algo que ele ama de verdade, e muitas vezes essas ideias acabam afetando de forma muito positiva a trajetória dos artistas com quem ele trabalha. Acho que a vivência que ele teve antes da Tijolo faz uma diferença total nisso.


NTS: Como você enxerga o papel de selos independentes na construção de espaços para sonoridades que ainda não encontram tanta abertura nos circuitos tradicionais?

RHR: Acho que essa pergunta é um pouco mais ampla, porque, na minha opinião, os selos independentes muitas vezes já estão fazendo o trabalho que precisa ser feito, lançando artistas, criando material, construindo comportamento, fazendo festas do próprio coletivo e formando uma comunidade em volta.
O que eu acho que precisa melhorar é a forma como promoters de festivais, clubes e outros espaços pensam suas curadorias. O ecossistema inteiro precisa ter mais coragem, responsabilidade e interesse. Promoters precisam pesquisar mais artistas fora dos mesmos eixos, o público também precisa ter mais intenção e se abrir para entender histórias, linguagens e DJ sets diferentes. Os artistas, de alguma forma, também precisam se aproximar mais do próprio público.
E acho que a gente precisa estar mais próximo da rua e de rolês mais democráticos também. É uma pergunta que daria pra ficar horas debatendo, porque existem muitos pontos para aprofundar. Mas, pra mim, essa é uma responsabilidade do ecossistema inteiro principalmente de quem detém mais poder de financiamento, curadoria e geração de oportunidades.


NTS: Se você pudesse escolher uma imagem, um som ou uma memória para representar esses sete anos da Tijolo, qual seria?

RHR: Com certeza seria eu tocando agora no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, com o Aquiles ali comigo. Nós dois como protagonistas de um momento que não se vive todo dia.
Não penso nisso como validação, mas como a possibilidade de olhar para onde o nosso trabalho foi chegando. E entender que, tijolo por tijolo, a gente vai construindo os nossos sonhos.


DJ / Produtor do selo - Cesrv @cesrv

NOTTHESAMO: Como você se aproximou da Tijolo e o que fez perceber que existia uma afinidade entre o seu trabalho e o universo do selo?

Cesrv: Fiz o primeiro lançamento oficial do selo com o meu EP "The Underground" de 2020, foi um processo muito natural o meu envolvimento no selo. Como as coisas ainda eram muito recentes, ajudei bastante na estruturação de algumas partes e hoje 7 anos depois continuamos na atividade!


NTS: Para você, o que diferencia a Tijolo de outros selos ou coletivos independentes com os quais já se relacionou?

C: Acho que o fato de sempre termos pessoas que são envolvidas com a cena da música eletrônica em várias vertentes torna o selo bem plural e conseguimos atingir várias sonoridades diferentes em uma noite de evento.


NTS: Como você enxerga o papel de selos independentes na construção de espaços para sonoridades que ainda não encontram tanta abertura nos circuitos tradicionais?

C: Acho que hoje em dia, infelizmente, as coisas estão bem mais individualizadas, mas desde sempre, na cidade de SP, os selos independentes foram plataformas necessárias para a formação e propagação de novos artistas e gêneros musicais que ficam além do óbvio.


NTS: Se você pudesse escolher uma imagem, um som ou uma memória para representar esses sete anos da Tijolo, qual seria?

C: Tenho muito carinho por todos os eventos da Tijolo, mas acho que os mais marcantes pra mim foram o evento em que o Kush Jones veio diretamente de NYC para o centro de SP, e também a primeira festa na rua pós-pandemia no Vale do Anhagabaú - grandes dias!