Um papo entre gerações: Leci Brandão, Mc Marcelly e Mac Júlia sobre a mulher na música

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A música no Brasil surge de uma fusão entre as tradições indígenas e africanas, além de influências portuguesas, desde que nossas terras eram ocupadas. Comercialmente, o início do século passado demonstrou o surgimento e manutenção de estilos como o samba, as marchinhas e a chegada do jazz e blues por aqui. Entretanto, desde Chiquinha Gonzada, conhecida como a pioneira no Brasil, a música aqui passou a ser desenvolvida também por mulheres, sendo influentes desde o primeiro momento.

Porém surgindo como um reflexo da sociedade, esses movimentos femininos sofreram com as tentativas de entrada no mercado, tendo poucas mulheres representantes durante os anos. Com o samba tivemos Leci, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho. Anos depois o funk nos trouxe Mc Marcelly, Mc Sabrina e junto o rap nos apresentou Dina Di, Negra Li e atualmente representantes como Mac Júlia.

Para entender melhor sobre essas influências, as diferentes formações através do tempo e a importância de ter referências que ajudem outras histórias a surgirem, conversamos com três grandes representantes de diferentes momentos da música, Leci Brandão, Mc Marcelly e Mac Júlia, que contaram suas relações com o mundo da arte. Confira as entrevistas completas abaixo:

Leci Brandão:

NOTTHESAMO: Como foi iniciar na música em pleno anos 70, ainda com a indústria brasileira em evolução, e sem muitas referências mulheres para auxiliarem e serem guia no processo?

Leci Brandão: Eu acho que foi uma coisa de determinação de Deus, porque quando a gente não tem na família ninguém que toque instrumento, absolutamente, é difícil. Então, a música brotou na minha ideia e, graças a Deus, agradou. Agora, não posso deixar de fazer uma referência à Estação Primeira de Mangueira, que foi a Escola de Samba que abriu a ala de compositores para que eu entrasse. Eu fui a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da Mangueira. Foi muito emocionante.

N: Algo tem chamado mais a sua atenção quando o assunto são as mulheres que fazem música atualmente?

LB: Veja bem, se você tem o dom de criar uma música, seja letra ou música, eu acho que você não deve desistir nunca. Acredito inclusive que outras meninas nos dias de hoje tem temas importantes para vida e pra sociedade de modo geral e elas devem persistir, continuar. A gente não deve nunca desistir dos nossos sonhos.

N: Se tivesse uma dica para dar às mulheres e meninas que sonham em trabalhar não só da música, mas da arte no geral, o que seria?

LB: Eu fico feliz porque eu percebo que tem muitas jovens, inclusive jovens pretas, que não só compõem como também tocam. Eu sou uma compositora intuitiva, não toco nenhum instrumento de harmonia. Então aplaudo sim novas compositoras, acho que os temas são importantes, as pautas estão muito boas e a gente tem que torcer para que tudo continue dando certo. As mulheres precisam cada vez mais ter seu espaço na arte brasileira.

Mac Júlia:

NOTTHESAMO: Vinda das batalhas de rima, hoje presente na gravadora de uma das maiores mulheres da música brasileira, e de um dos maiores rappers do país, como você observa a herança deixada por outras mulheres que iniciaram movimentos musicais quando ainda não existiam outras representantes?

Mac Júlia: Então, se hoje eu tô aqui é porque teve uma mulher que apanhou do sistema para abrir esse espaço. Sendo bem real, ainda tentam apagar a gente o tempo inteiro, em todos os lugares, em todas as profissões possíveis. Mas a diferença é que a minha geração não aceita mais isso, né, a gente não está mais pedindo licença, domina o espaço, cria a movimentação e faz dinheiro com isso. Então, eu faço questão também de deixar a porta aberta para que mais mulheres possam passar. E eu acho que é isso que tem que ser o pensamento, né, porque quando uma de nós sobe é uma exceção, quando várias sobem juntas é uma mudança. E é isso que a gente pode ver aí no cenário do rap, cada vez mais também no cenário do funk. Aos poucos a gente vai fazendo essa mudança aí.

N: Olhando para as gerações anteriores a sua, o que você pôde aprender que mudou sua percepção sobre mercado e ser uma mulher no mundo da música?

M: Eu aprendi que o mercado não é justo, nunca foi. E hoje eu trabalho com estratégia, sabe, quem não entende isso eu acho que acaba ficando para trás e acaba sendo engolido pela indústria. Antes muitos artistas eram só voz, hoje eu entendo que eu sou uma marca, eu sou um negócio, eu tenho os meus alter egos, eu sou uma mente por trás de tudo. Então eu preciso me posicionar e criar esse viés artístico. Se você não se posicionar, alguém acaba te usando, usando da burocracia. Aprendi a me colocar, cobrar e não aceitar qualquer coisa só porque é oportunidade. Venho buscando me direcionar e como artista independente, foi algo desafiador e esclarecedor para mim na minha carreira.

N: Se tivesse uma dica para dar às mulheres e meninas que sonham em trabalhar não só da música, mas da arte no geral, o que seria?

M: Pare de esperar alguém te salvar, te escolher. Ninguém está vindo te salvar. Ou você se posiciona ou você vira figurante da história dos outros. Então começa sem estrutura mesmo, com medo, mas sendo você, com suas prioridades,  criatividade, com seu eu artístico, porque o mercado tenta moldar a gente de todas as formas possíveis. Eu acredito muito nisso de que quem alcança e realiza é quem não se dobra, quem não deita. Então esse é meu conselho. Vai pra cima, não dá mole não. Não espera de ninguém o que você deve fazer por você.

MC Marcelly:

NOTTHESAMO: Você apareceu para o mundo durante o crescimento exponencial que o funk teve no início dos anos 2000. Porém antes de tudo isso, quem era a Marcely?

MC Marcelly: Sim, comecei bem nova em 2009 e minha música estourou logo em seguida, com 16 anos. Foi tudo muito rápido na minha vida, eu tinha acabado de ter minha filha, foi um momento muito intenso. Antes disso eu era uma menina normal, que estudava, brincava, uma menina sonhadora. Eu amava cantar, e ficava escrevendo minhas próprias músicas junto com minha irmã. Eu já tinha esse sonho.

N: Havia mulheres no mundo da música no qual você olhava e te davam a esperança que era possível seguir esse caminho sendo mulher, em um meio tomado por homens?

M: Sim! Eu amava escutar a Mc Sabrina, ela foi uma grande referência no início da minha carreira.

N: Se tivesse uma dica para dar às mulheres e meninas que sonham em trabalhar não só da música, mas da arte no geral, o que seria?

M: Invista em você, acredite em você e ame o que você faz. Confie no seu potencial. A gente vive num mundo muito machista, e as porradas da vida às vezes vão te fazer duvidar de você mesma, mas olhe pra dentro de você e lembre quem você é.