O carnaval em analógica por Luca Marchi e Leonardo Pimentel

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Os registros de Luca partem de uma relação construída de dentro para fora. O interesse começa como tentativa de criar um arquivo próprio de experiências já vividas com amigos e vai ganhando direção conforme ele passa a acompanhar mais de perto o circuito de fanfarras e blocos, especialmente no Rio de Janeiro a partir de 2024. Já o trabalho de Leonardo Pimentel parte de um recorte oposto. O ponto de entrada é o entorno do Sambódromo, com os carros alegóricos estacionados após os desfiles, ainda carregando toda a escala e complexidade de construção, mas agora fora do contexto de apresentação.

O uso da fotografia analógica aproxima os dois, mas por razões que não passam por efeito visual. No caso do Luca, a escolha está ligada à construção de acervo, à ideia de manter um registro físico que possa ser revisitado com o tempo e que acompanha a própria continuidade desses encontros. No caso do Leonardo, essa lógica aparece na natureza do que foi fotografado, estruturas que deixam de existir poucos dias depois, desmontadas logo após o desfile. Em comum, os dois trabalhos tratam o carnaval como um processo social e cultural, valorizando o que a festa tem de mais excêntrico e brasileiro.

Pudemos conversar com os dois sobre o desenvolvimento desse trabalho, os processos, as relações com a data e até mesmo detalhes de cada registro, confira a entrevista completa abaixo:

NOTTHESAMO: De onde surgiu a paixão e a vontade em fotografar os carnavais por aí?

Luca: A paixão e a vontade de fotografar os carnavais por aí vem primeiro por vontade de ter um registro próprio do que eu já estava vivendo em anos anteriores com amigos, começa muito mais nesse âmbito pessoal.

O Felipe é um amigo de Búzios mas que vive aqui em São Paulo e foi quem me convidou - eu e outros amigos - a passar o carnaval no Rio de Janeiro pela primeira vez em 2024.

Ele já é do Carnaval há um pouco mais de tempo que eu, vive isso mesmo, é músico, toca em fanfarras, e eu tive a vontade de começar a registrar um pouco do que ele vivia também nesses momentos, então eu levava minha câmera pros ensaios, apresentações, festivais em que ele ia e aproveitava pra fotografar os momentos dele e dos companheiros de fanfarra e o que tava ao redor, e nisso eu comecei a expandir um pouco o olhar para esse universo como um todo.

N: Você sempre teve uma relação próxima com a festa do carnaval, ou isso aflorou apenas agora?

L: Puxando o gancho já da primeira, não, eu não tinha uma relação tão próxima com o Carnaval assim antes de 2024, que foi o primeiro ano que fui para o Rio de Janeiro exclusivamente para aproveitar o Carnaval de rua de lá, sem nenhum registro que não fosse os vídeos e fotos que fazia com o celular esporadicamente.

Eu já tinha pulado Carnaval aqui em São Paulo mas não da mesma maneira, era um dia ou outro durante o feriado e não costumava ter a mesma empolgação. Sinto que lá a energia do Carnaval é diferente, a estrutura é outra.

Enquanto em São Paulo eu vejo um movimento muito maior para blocos no Ibirapuera, Faria Lima com trios elétricos e afins, lá o Carnaval é mais no chão, com cortejo, banda formada por vários instrumentistas - que normalmente fazem parte de vários grupos que se apresentam no Carnaval - e com o público acompanhando por um trajeto, quando o bloco acaba os músicos acabam se dispersando para ir tocar em outros blocos ou ficando por ali mesmo e continuam tocando por horas e horas até se cansarem e o público abraça isso, então você ta em um bloco que acordou 4 ou 5 horas da manhã pra conseguir se arrumar e chegar na concentração, vai pra outro bloco depois, e de bloco em bloco é de noite já e tem uma galera ainda na rua acompanhando os músicos que ficaram.

N: O que mais te intriga e o que mais agrada ao sair para fotografar no carnaval?

L: Tem dois pontos que me intrigam bastante: a maneira que a cidade é ocupada e como as pessoas se desprendem de certas normas coletivas durante o Carnaval.

Eu acho que isso é parte da minha experiência pessoal também. Acho que dentro das instituições que a gente está presente no nosso dia-a-dia, nós não temos as mesmas possibilidades que temos durante o Carnaval, durante esses dias no ano a gente acaba se libertando de certas convenções que somos obrigados a seguir e podemos ser algo mais próximo da nossa essência, estar mais aberto pra vida, acho que aí que mora o encanto que tenho com essa festa e é o que eu busco nesses registros também em algum nível.

Sobre a questão da ocupação da cidade, eu acho que ela acaba trazendo diversas coisas à tona. Na minha experiência no Rio de Janeiro eu vi blocos que faziam uma concentração 4 horas da manhã antes do cortejo começar e em locais bem diferentes, acho que isso traz um debate sobre essa ocupação, resgate de lugares históricos abandonados.

Aqui em São Paulo pra além do circuito de megablocos em Ibirapuera, Faria Lima, JK, Henrique Schaumann, Consolação e outros lugares mais centrais, você tem também blocos menores ocorrendo em lugares mais afastados, sem tanto investimento, do jeito que dá, e isso acaba também trazendo à tona o debate das condições necessárias e do apoio do Governo pro Carnaval.

O Carnaval de SP não é nem um feriado, é ponto facultativo, no Rio de Janeiro é feriado em todo o Estado, as cidades se voltam pra isso, acho que isso é um ponto a ser observado também, a manutenção do Carnaval, porque é algo que exige planejamento, estrutura, e às vezes a gente acaba esquecendo que tem gente trabalhando duro pra fazer esse rolê acontecer. E esse debate da questão da preservação do Carnaval precisa acontecer, esse ano eu vi pessoas que trabalham no Carnaval de Olinda comentando sobre a queda do investimento pra que as orquestras de frevo saíssem às ruas, é um patrimônio cultural do nosso país, precisa existir um fomento pra que esses grupos possam sair nas ruas e desfilar durante o Carnaval, então acho que é importante também pensar sobre as políticas públicas.

N: Existe algum lugar que você olha como o próximo destino para captar esses registros?

L: Eu acho que meus registros vão acabar acompanhando ainda por um tempo esse movimento que faço com meus amigos de ir para o Rio de Janeiro.

É um lugar que a gente gosta de estar e que eu vejo com muita história também que eu ainda não registrei. Apesar de estar lá há alguns anos, a cada ano que passa surgem novas histórias que merecem ser registradas.

Uma que é muito interessante é a do Glorioso Mergulho à Fantasia, fui pela primeira vez agora em 2026 - ele acontece no final de semana após o fim do Carnaval e surgiu em 2024 - e é um bloco que nasce a partir de um resgate histórico de uma tradição de concursos de fantasia que aconteciam à beira mar, isso surge de uma pesquisa do Alex Teixeira, que é Artista, Pesquisador, Gestor Cultural, enfim, eu acho que ainda tem muito a ser registrado por lá e fico muito interessado nessas histórias.

Tenho sim a vontade ainda de viajar para outros lugares como Olinda, que tem uma tradição muito forte das orquestras de frevo, que tive o prazer de registrar, mesmo que em pequena escala, aqui em São Paulo no aniversário da cidade esse ano.

Tenho outros destinos em mente também, mas acredito que iria fora da época do Carnaval, o Honk é um festival de fanfarras ativistas muito bacana que acontece em vários lugares do Brasil, não necessariamente todos os anos em todos os locais, com gente que viaja de vários cantos do mundo para se apresentar e acredito que seja uma ótima maneira de ter contato com quem faz o Carnaval acontecer o ano inteiro, cada um do seu jeito.

N: Como você vê essas criações ressoando em alguns anos? Os registros são mais subjetivos ou partem de uma pesquisa ainda a ser apresentada?

L: Eu acho que eu não poderia estar respondendo isso num momento melhor. O Felipe, que mencionei anteriormente, fazia parte da oficina da Charanga do França, que é um bloco aqui de São Paulo e que a partir do ano que vem vai se apresentar somente com uma banda reduzida e em outro formato - nesse ano eles saíram em cortejo com os músicos que faziam parte da Oficina.

Desde o ano passado acompanhei ele em algumas ocasiões e fiz alguns registros dele e de outras pessoas da banda também, nada oficial, e acabei sem querer registrando as últimas vezes que essas pessoas estariam juntas - enquanto representantes da Charanga do França.

Não foi nada intencional, essa notícia da mudança do formato das apresentações a partir do ano que vem recebi recentemente, mas acho que esses registros acabam sendo também uma forma de manter essa memória viva, criar algo que pode ser revisitado no futuro quando eu tiver olhando meus negativos ou quando os músicos tiverem olhando pra essas fotos.

Eu sempre acabo compartilhando o que registrei com as pessoas dos blocos que tô fotografando, e tento encontrar as pessoas pra mostrar aquilo pra elas. Espero que seja uma forma delas guardarem esses momentos também. E acho que tem outras fotos que acabo fazendo, as que não são necessariamente dos blocos e dos músicos, que acabam virando mais um acervo pessoal, ainda acho que existe a possibilidade de apresentar isso de uma outra maneira futuramente.

N: Além de registrar os movimentos carnavalescos, o porque da escolha em realizar isso com câmera analógica? Há algo de diferente que converse com essa sua visão, que somente os filmes são capazes de atingir?

L: A fotografia analógica foi na verdade meu primeiro contato mais aprofundado com fotografia. Eu acho que conversa bem com o que eu quero construir pensando a longo prazo, eu não acho que seja por algo que somente o filme alcance em nível estético porque o digital também consegue simular isso. Mas é diferente você ter os rolos dos filmes que fotografou, poder escanear aquilo quando quiser no futuro, é a construção de um acervo mesmo. Com fotografia digital são só arquivos, claro que podendo ser impressos, mas que eu acho mais fácil de se perder no meio do caminho.

Eu acho que a fotografia analógica é algo atemporal, é química, é história e permite que eu continue fazendo esses registros e os tenha guardados por muito tempo. Falando especificamente do Carnaval, esses registros são feitos em momento em que eu também estou ali pra aproveitar a festa, acabo sendo um folião que também tira fotos, não quero acabar ficando refém dos registros que estou fazendo e acho que receber os resultados dessas fotos em outro momento me traz uma lembrança daquilo que registrei e às vezes na hora não notei que estava enquadrado, ou que não imaginei que ficaria tão bom, é sempre uma surpresa.

Agora, seguimos com a entrevista com Leonardo Pimentel, que teve o acesso para fotografar o backstage do desfile das campeãs de São Paulo de uma forma inusitada:

NOTTHESAMO: Qual a maior diferença você sentiu em fotografar o carnaval, se comparado com os trabalhos e momentos que você costuma fotografar?

Leonardo Pimentel: Foi a minha primeira vez registrando algo relacionado ao carnaval. Surgiu de algo que já pensava há um tempo, eu sempre morei perto do Sambódromo e passava ali, via eles estacionados e aquilo me atraía. Algo daquela magnitude, construída com sucata, no meio da avenida, com pessoas em cima e outras guiando.

N: Nos conte sobre a situação de entrar no Sambódromo, um local de difícil acesso, para fotografar o desfile das campeãs. Como vocês acessaram o local e puderam acompanhar os processos singulares de montagem e desmontagem da festa?

L: Era uma sexta-feira, dia 20 de fevereiro, após os desfiles. No outro dia seria o desfile das campeãs, em um estacionamento próximo todo fechado em tapumes. Nós vimos uma brecha e pensamos: porque não?

Então fomos eu, o Yago e o Enzo. Fizemos algumas fotos dele e do pessoal ao redor.

O que eu mais curti foi fotografar o carnaval sem o glamour tradicional, idealizado e vendido, que não mostra a realidade das pessoas que curte a festa, paga e está lá. Quem faz e trabalha, vive por aquilo, e faz por que gosta, e não por dinheiro.

Pegamos os carros estacionados, sem efeitos, conhecemos diversas pessoas que trabalham por lá. Uma dessas pessoas por exemplo, que era “efeitista” de água dos carros, ele fez quatro das cinco escolas que ficaram em primeiro. Conhecemos também o pessoal da manutenção, que nos deixou subir em um dos guindastes, acima dos carros.

N: O que esse trabalho representou para você sobre a fotografia no geral e a forma que você enxerga ela?

L: Quis trazer algo puro, das pessoas trabalhando e em um objeto de uma magnitude gigantesca.

O trabalho foi autoral, pude explorar bastante o que fotografei e principalmente para documentar. Gosto pelo fato de ter sido algo que não irá acontecer novamente, os carros serão desmontados, aquilo não existirá novamente, da maneira que foi fotografada.