Vandal, da infância na Cidade Nova ao novo álbum VANGUARDAH

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Vandal, da infância na Cidade Nova ao novo álbum VANGUARDAH.

Oriundo da Cidade Nova, em Salvador, o artista reflete sobre como sua infância foi moldada por dualidades profundas: de um lado, a realidade periférica atravessada pelo crime; de outro, o acesso a discos da Tropicália trazidos por seu avô e a revistas de turismo internacionais guardadas por sua mãe, que expandiram sua capacidade de sonhar. Vandal, que se define como um ponto de cultura desde a infância, encontrou seu primeiro território de ataque e expressão visual na pichação e no grafite.

A inquietude do artista o levou a se conectar com a cena de grime britânica ainda no início dos anos 2000, inspirado por figuras como Dizzee Rascal, Lady Sovereign e o DJ Semtex, cujas dinâmicas de distribuição independente e texturas cruas serviram de base para sua própria revolução música. Logo após isso, sua maneira de fazer música funcionou de encontro a maneira que a cultura se movimentava, e hoje Vandal é um dos grandes e mais excêntricos nomes da música brasileira.

Agora, o artista se prepara para apresentar "VANGUARDAH", um projeto que ele descreve como uma ode profunda à arte e um reflexo de sua maturidade criativa. O novo trabalho recusa fórmulas prontas e embalagens comerciais, consolidando o compromisso de Vandal com uma entrega crua, urgente e indissociável de uma Bahia profunda. Confira a entrevista completa abaixo:

NOTTHESAMO: Antes de tudo, quem é Vandal? Fora da música, dos palcos e dos estúdios, quem era o garoto do bairro de Cidade Nova?

Vandal: Eu me coloco desde a infância como um ponto de cultura. Minha mãe trabalhava em uma empresa de turismo e ela trazia revistas, que me davam a capacidade de sonhar além do meu bairro. Além da minha mãe, meu avô trabalhava na TV Itapoan, ele tinha contato com os músicos da Tropicália, e trazia muitos discos que ele ganhava de presente. Toda minha infância foi muito sobre as dualidades entre o que o bairro e minha família propiciavam.

Vindo de um bairro de periferia, tendo essa relação com o tráfico de drogas, com o crime e com tudo que é apresentado, mas com a visão de mundo muito ampla, porque minha mãe trabalhava numa empresa de turismo e ela sempre trazia essas revistas, né, Que eram essas revistas que me deram essa, essa capacidade de sonhar além bairro, sonhar além da cidade nova.

Então Vandal era apenas um garoto dentro daquele seio de problemáticas da da Cidade Nova, mas que tinha toda essa gama de informação ali que fazia com que ele sonhasse. Daí veio esse amor pelos barcos, pelos cruzeiros, e esse amor pelo processo artístico.

Eu vivi a cidade de uma forma muito intensa, porque eu sou oriundo da pichação, eu venho da pichação. Antes de cantar eu era da pichação.

NTS: O que você mais se recorda da influência que seu pai teve como dançarino de Break e do movimento Punk? Quanto isso influenciou na pluralidade do seu trabalho e entendimento musical?

V: É interessante falar isso que no aniversário da minha tia, agora de 95 anos, meu pai estava relembrando uma história pra gente, né? Foi um assalto, na verdade por conta de um tênis que ele tinha e como meu pai contou como ele foi atrás, desse quase algoz do meu tio. Hoje em dia esse algoz virou um mendigo e passa hoje por ele e tal.

Minhas referências sempre foram familiares e do dia-a-dia. Meu pai dentro dessa história sempre teve contato com a dança, não só através do hip-hop mas também do punk, algo muito latente da Cidade Nova (bairro em Salvador, BA).

NTS: Qual ponto te levou a buscar na música seu desenvolvimento como artista? Houve algum momento em que você decidiu que seria a música seu caminho, ou foi algo natural?

V: Tudo na minha vida acontece de forma muito espontânea e natural. Eu acredito em um Deus-música que acaba cooptando quem tem uma abertura artística, como eu já tinha. A música acabou me encontrando por uma predisposição.

Não tenho uma exatidão de data nem nada do tipo. Eu só sei que aconteceu e aconteceu de uma forma muito espontânea, porque pela minha forma de me expressar, pela minha forma de de de ataque dentro da pichação e do grafite.

Vários artistas da cidade já tentavam me cooptar pra música. Diziam que eu tinha que que cantar, etc. Mas eu me recordo que as primeiras letras eu escrevi na escola, né, no ensino médio. Ali eu acabei escrevendo algumas letras, mas não tinha pretensão de cantar. Só que quando eu observava que a música e os artistas de rap nacionais, eles eram muito inclinados para um perfil musical só. E eu não me encaixava naquilo, né? Só depois de muito tempo e quando eu comecei a ver outras possibilidades que eu tive as pesquisas ali, né, Através do Ministério Público, né?

Através do DJ DFRENCE, DIMAK, que é um MC e tatuador daqui que foi quem me deu o disco do Boy in Da Corner , ali eu vi que era possível. Isso meio que me potencializou, porque eu encontrei aqui naquilo a possibilidade.

NTS: Você se recorda do que escutava, assistia e consumia nessa época que te fez querer desenvolver sua própria linguagem?

V: Eu sou oriundo de festa de largo, então sempre ouvi desde o pagodão baiano, o axé antigo, samba-reggae e mesclado com as pesquisas que tinha das oportunidades lá fora.

Mesclado a isso foram as informações que eu tive a nível de pesquisa. Eu sempre fui muito inquieto, então, sempre busquei possibilidades lá fora. Pelo fato, mais uma vez frisando da minha mãe ter trabalhado numa agência de turismo, eu meio que sempre tive essa curiosidade de entender o que acontecia lá fora, então sempre busquei a música lá fora, por que eu já tinha essas imagens. Então eu passei a buscar a música lá fora. E dentro desse contexto de música, eu acredito que é muito bom frisar isso.

Até meu primeiro impulso pro grime surgiu assim, no momento em que vi o DJ Semtex tocando com o Dizzee Rascal. Quando eu vi ele tocando, vi que ele não tinha um braço, aquilo foi uma das coisas mais impactantes que eu vi até hoje na música.

E o fato também do Dizzee Rascal não ter dobra, né? Hoje ele tem, mas me chamou atenção.

Gosto de frisar que aqui a Lady Sovereign, que era um dos grandes nomes da antiga do grime, que foi quem eu observei o caminho que ela fazia. Tinha um site chamado Chantilly Fields que eu lia as histórias e traduzia e eu vi que essa lady. Ela fazia o seguinte, pegava pedaços da música dela e mandava por e-mail pra milhares de pessoas. E ela viralizou assim.

NTS: Aproveitando o gancho sobre linguagem, há uma explicação sobre a utilização do “H” no final das palavras?

V: O lance do “H” no final das frases vem de algumas coisas. Primeiro, eu já entendia que a internet se tornaria o que ela se tornou hoje, né? Um campo muito líquido e volúvel. Eu entendia que a internet se transformaria nisso. Então, pra eu ter uma identidade dentro de uma rede líquida, descartável, volúvel, que as coisas acontecem de forma tão urgente, é o que acontece ontem e já é superado no que vai acontecer amanhã.

De uma forma brutal, eu precisava ter uma característica certeira de comunicação e que se colocasse o dedo e dissesse, esse é Vandal! Ah, isso aqui é Vandal! Ah, essa música Vandal.

Isso se atrela com o contato que tive com as revistas de turismo, eu comecei a pesquisar que a arquitetura soviética naqueles países do leste europeu e a escrita desses países me encantou porque como eu venho da pichação, eu vi que a caligrafia dessas localidades se assemelhava a uma pichação.

Quando você vê a Vandal comentando alguma coisa, quando você vê a música ou uma música de de Vandal ou alguma coisa relacionada, você vê que tem uma caligrafia diferente. Então você vê que eu continuo pixando, até porque várias pessoas odeiam. As pessoas não suportam. Assim como a pichação é odiada e não é suportada até hoje por muitos.

NTS: Com seu novo álbum, Vanguardah, o que você busca ressaltar da sua história, e o que apresentará de novo ao público?

V: Vanguarda é um disco muito, muito especial. Eu acredito que ele reflete essa minha inquietação artística. E o que eu quero que as pessoas entendam é o que a arte é capaz de proporcionar. Quando se tem o amor verdadeiro e profundo por ela, o Vanguarda é uma ode à arte.

É entender que aquele cara que todos apontam e sinalizam e esperam algo sempre pode surpreender, simplesmente porque ele abraça a arte de uma forma verdadeira.

Espero principalmente que isso faça com que vários artistas entendam que o se debruçar na arte é o principal, mais interessante do que performar a arte é viver e amar a arte, se entregar de uma forma genuína, sincera e verdadeira.

Tudo que vem nesse disco vem com um olhar muito, muito, muito, muito, muito peculiar de que entendeu o seu papel dentro da arte de quem não se vendeu, de quem não se gentrifica, quem não se moldou, não se empacotou num papel de presente pra ser apresentado ao público. Continua sendo o Vandal de uma forma crua, urgente e visceral como ele é, mas com a pesquisa e um abraço de um vasto olhar de Bahia profunda.

A honra de ter o maestro Ubiratan Marques próximo a isso, ter o russo passapusso próximo a isso, o Thiago Simões próximo a isso, com a honra de ter todas essas referências baianas que vivem comigo, que trabalham comigo e fazem arte comigo.

NTS: Quais referências, sejam filmes, fotógrafos, música e cotidiano, te acompanham hoje?

V: Minhas referências são a vida em si e as pessoas. Eu sou um entusiasta assim do cinema, da música, eh, Enfim. Mas eu acredito que essa grande referência do hoje, do dia a dia pra mim são as pessoas, são as informações que eu tenho de vida.

Para mim é muito mais importante ver o dia a dia de uma pessoa do que ouvir uma referência musical. Eu acredito que a música está em tudo, a música está em todos os locais, então às vezes eu estar indo numa feira livre aqui, como a feira de sete portas, a feira de São Joaquim e estar ouvindo uma senhorinha cantando ali, pra mim é mais importante do que uma referência de algum artista específico, sabe?

Eu tô ouvindo esses sons que circundam esse dia a dia, seja de trânsito, discussões, perguntas e respostas. Por isso que eu costumo dizer a todo mundo que eu sou um artista muito urgente. Tudo que eu escrevo, tudo que eu faço e o que eu vivo, eu preciso estar vivendo pra poder escrever pra poder entregar a arte.

Até porque na pichação eu tinha que estar na rua, eu tinha que estar vivenciando, correndo, escalando, fugindo da polícia, tendo contato com outros artistas, então a música pra mim não poderia ser diferente.

Eu só consigo fazer música quando eu tenho esse abraço da rua e da vida em si. Então, acredito que minha principal referência é a vida, a vida abundante, a vida vivida, a vida acontecendo não só por não só a minha, mas a vida que me circunda, das cidades que eu visito, das pessoas preenchendo essa cidade.

NTS: Se tivesse que dar uma dica para alguém, qual seria?

V: A principal dica que eu dou, principalmente para os artistas novos, é que esqueçam o MC, esqueçam o rapper, esqueçam a figura do Rapper e esqueçam o MC. Um poço de ego, de soberba e arrogância. Meu conselho é que em vez de você tentar esse feat com outro MC, em vez de você tentar esse contato, esse conhecimento com outros MCs, busquem o entorno desse MC. O fotógrafo, DJ, dançarino de break, grafiteiro, roadie, o produtor, designer, busque todo mundo que entende como essa máquina por trás do MC.

A grande dica que eu dou a todo mundo, principalmente os artistas novos. Não busque o MC, busque o que faz o MC acontecer, que é todo esse ecossistema de pessoas e profissionais que circundam ele.