Zeca Pagodinho, o filho do samba

Feb 4, 2026

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Zeca Pagodinho nasce Jessé Gomes da Silva Filho em 4 de fevereiro de 1959, no subúrbio do Rio de Janeiro, em Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, Filho de um pedreiro e de uma dona de casa, Zeca cresce num ambiente em que o samba já havia atravessado seu primeiro grande ciclo de institucionalização.

As escolas de samba estavam consolidadas como espetáculo oficial do carnaval, os grandes compositores da chamada era de ouro já tinham seus nomes inscritos na história e o gênero começava a ser tratado como patrimônio cultural, ao mesmo tempo em que se afastava, pouco a pouco, do cotidiano urbano que o havia produzido. Crescer nesse período significava viver um samba menos visível nas rádios, mas profundamente presente nos quintais, nos bares, nas festas de família e nos encontros informais do subúrbio.

A formação de Zeca acontece nesse espaço intermediário, o subúrbio carioca dos anos 60 e 70 era atravessado por fluxos migratórios internos, principalmente de populações negras vindas de outras regiões do estado e do país, formando um tecido social onde o samba funcionava como código comum. Não se tratava de aprender música como técnica, mas de absorver repertório, ritmo, improviso e convivência.

Na juventude, Zeca passa por uma série de trabalhos informais, como a maioria dos jovens do subúrbio naquele período. Trabalha como servente, faz bicos, circula entre bairros, enquanto frequenta rodas de samba em Madureira, Oswaldo Cruz e arredores. Esse circuito suburbano era fundamental para a sobrevivência do samba naquele momento histórico. Longe dos grandes palcos, eram essas rodas que mantinham viva a prática musical, transmitiam repertório e formavam novos compositores.

Fundado nos anos 60 como bloco carnavalesco, o Cacique se transforma ao longo dos anos 70 em um dos principais polos culturais do samba carioca. Mais do que um espaço físico, ele funciona como ponto de encontro regular, onde músicos, compositores e cantores se reúnem sem a lógica do espetáculo formal. Ali, o samba volta a ser coletivo, horizontal, experimental. Novos instrumentos surgem, como o tantã, o repique de mão e o banjo adaptado, que ajudariam a definir o som do pagode nos anos seguintes.

Zeca se insere nesse ambiente como compositor e partideiro, alguém que compõe, responde versos, participa das disputas poéticas do partido-alto. Sua escrita refletia o cotidiano do trabalhador urbano, com humor, ironia, um tipo de comentário social, uma certa sabedoria prática.

A virada histórica acontece quando Beth Carvalho se aproxima do Cacique de Ramos. Beth já era uma figura central na renovação do samba desde os anos 70 e tinha consciência do papel histórico que exercia como ponte entre o circuito popular e a indústria fonográfica. Ao frequentar o Cacique, ela reconhece ali um movimento legítimo, não uma moda passageira. Beth passa a gravar músicas de compositores daquele espaço e a apresentar esses nomes ao grande público.

A relação entre Beth Carvalho e Zeca Pagodinho é fundamental para entender sua trajetória. Ao gravar composições de Zeca e levá-lo para projetos maiores, ela oferece visibilidade sem descaracterizar sua linguagem. Esse apadrinhamento é no sentido mais profundo, pois reconhece valor cultural e além disso, traz Zeca para o mundo do samba de vez.

Em 1986, o lançamento do disco “Raça Brasileira” funciona como documento histórico daquele movimento. O álbum apresenta ao país uma geração inteira ligada ao Cacique de Ramos e ajuda a consolidar o pagode como linguagem urbana contemporânea. Ainda assim, Zeca não se tornou imediatamente uma estrela, Seu primeiro disco solo não explode, e sua carreira cresce de forma gradual, sustentada por apresentações ao vivo, rodas, shows pequenos e circulação constante.

Essa lentidão inicial é importante. Diferente de artistas lançados por grandes estratégias de marketing, Zeca constrói sua base de público a partir do reconhecimento cultural. As pessoas se identificam porque reconhecem ali uma forma de falar, cantar e existir que já fazia parte de suas vidas. O sucesso não vem como ruptura, mas como continuidade.

Nos anos 90, Zeca se consolidou como um dos artistas mais populares do país. Ele passa a vender grandes quantidades de discos, lotar shows e ocupar espaços na televisão. Ao mesmo tempo, mantém uma postura distante da ideia de estrela pop. Sua imagem pública é construída em torno da informalidade, do improviso, da recusa de um comportamento polido, alguém como parte do público.

Musicalmente, Zeca mantém um compromisso firme com o samba tradicional, mas sem purismo rígido. Dos partidos-altos aos projetos mais elaborados, sempre preservando a centralidade de quem ele é como artista e pessoa, sem se distanciar do ritmo que criou, com um canto direto, próximo da fala em certos momentos. Essa escolha estética reforça a sensação de proximidade e identificação.

A relação de Zeca com o álcool e com o excesso se torna parte do imaginário público ao longo dos anos. Durante muito tempo, isso é tratado com humor e tolerância, quase como personagem folclórico.

Ao longo dos anos 2000 e 2010, enquanto o samba tradicional passou o espaço no mainstream para um tipo de pagode mais consumido pelas novas gerações, Zeca se mantém como referência estável.

Zeca ocupa também um lugar singular na construção da identidade nacional contemporânea. Sem discursos políticos explícitos, ele encarna um Brasil urbano, negro, trabalhador, contraditório e resiliente.

Ao completar mais um aniversário, Zeca Pagodinho não representa apenas uma trajetória individual de sucesso, mas um modelo raro de permanência cultural. Continua gravando, cantando, circulando, conversando, sua existência artística ajuda a entender como o samba sobreviveu às transformações do Brasil urbano nas últimas décadas.

Celebrar Zeca Pagodinho é reconhecer uma história que atravessa o subúrbio, a indústria cultural, o samba enquanto prática social e a própria ideia de cultura popular no Brasil. Não como mito inalcançável, mas como alguém que permaneceu fiel a uma linguagem coletiva, sustentando-a ao longo do tempo.

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