Criar é Resistir: Isaac e a Arte como Ferramenta Política
Como artista plástico, Isaac transforma sua vivência e ancestralidade em telas que contam histórias. Crescido na periferia de Guarulhos, sua jornada na arte começou coletivamente, participando de projetos culturais desde a infância.
Seu processo criativo envolve pesquisa intensa e múltiplos rascunhos antes que cada obra ganhe vida. A música, o cinema e a fotografia são pilares essenciais na construção de suas narrativas visuais, que mesclam afrofuturismo, crítica social e simbolismo.
Falamos com Isaac sobre suas referências, o impacto da cultura ballroom e a rebelião como caminho para o futuro. Confira abaixo:
Onde você cresceu e como esse ambiente influenciou sua arte?
Cresci e ainda vivo na periferia de Guarulhos. O bairro em que cresci foi fundamental na minha arte - durante a infância e adolescência participei de muitos projetos do governo, então vivi a fase de formação criando arte em coletivo.

Em algumas obras, você traz referências diretas a cantoras pops. O que te atrai nesse universo e como ele se encaixa na sua mensagem artística?
O que me atrai nessas artistas que coloco em tela e como elas produzem os seus trabalhos com maestria. Citando a minha principal referência, Beyoncé, em seus novos projetos ela quer te ver dançar mas com a pesquisa completamente política do retomar os gêneros musicais que foram apropriados por pessoas brancas. Então, quando vou falar de construir um futuro no meu trabalho tenho que falar de outros artistas que estão construindo esse futuro hoje.

Você sempre soube que queria ser artista plástico ou esse caminho surgiu de outra forma?
Não, sempre desenhei mas nunca foi meu foco… Pratiquei outras disciplinas como dança, por muito tempo e fiquei na moda por um tempo, mas durante a pandemia não consegui desenvolver nenhuma das duas e aí comecei a pintar e entrar nas artes plásticas.
Como se dá seu processo criativo? Há algo em específico que você faz no momento de execução?
Acho que consumir Arte no geral: filmes, músicas, livros e fotografia são essenciais no meu processo criativo. O mais específico do processo é construir muitos rascunhos das telas — uma tela pode ter até 10 rascunhos de cada detalhe. Fazer mapa de cores das roupas, é um exemplo: faço uma pesquisa de figurino para compor a história que quero contar.

Seu trabalho tem um forte simbolismo. Você busca criar uma utopia, uma crítica social ou ambos?
A base do meu trabalho é o Afro-futurismo, então existe o criar a utopia para tentar escapar do cotidiano terrível, mas existe o lado político que tem falado mais alto nos meus trabalhos. Não existe futuro sem rebelião.
Como você escolhe os elementos visuais e simbólicos para compor suas pinturas? Existe uma pesquisa por trás de cada obra?
Todos os meus trabalhos começam a partir de uma pesquisa, na qual crio um resumo do assunto que vou pintar e de como construir essa história visual. Cada tela faz parte de uma série, longa ou curta, que possui um começo e um fim narrativo. A segunda etapa é contar essa história visualmente, o que envolve consumir diversas formas de arte e reunir o máximo de referências possível — quase como a construção de um arquivo mental. Além disso, crescer em um lar religioso, mesmo sem seguir a fé, me proporcionou uma bagagem de referências que adicionam um toque sacro às minhas obras.

Quais são suas maiores influências artísticas e culturais?
Vou separar em categorias:
Música: Beyoncé, Urias, Solange e Linn da Quebrada;
Artes visuais: Abdias Nascimento, Ode Hilarie, Kara walker, BraNw e Yoshitaka Amano;
Cinema: Jordan Peele, Pedro Almodóvar e Spike Lee.

O estilo Vogue e a arte Drag aparecem em suas obras. Como esses movimentos te influenciam artisticamente?
Não existe futuro sem arte preta LGBTQIAPN+. Essa é a base do meu trabalho: questionar a performance de gênero e sexualidade. A cultura ballroom também reflete esse propósito, sendo uma comunidade que constrói família, promove apoio coletivo por meio da arte e desafia diretamente as normas sociais.
Se você pudesse dar uma dica pra alguém, o que você diria?
Pesquise e tenha domínio da sua arte e tente tudo o que for possível. Seus primeiros trabalhos são somente testes — não o que vai ditar a sua arte no futuro.
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