Do reggae ao punk: como os jamaicanos ajudaram a escrever a cultura britânica
22 de junho de 1948, o dia em que o HMT Empire Windrush atracou no porto de Tilbury, ao leste de Londres, com quase 500 passageiros vindos da Jamaica. A embarcação não era nova nem gigantesca. Havia sido construída na Alemanha em 1930, servido à propaganda nazista, transportado prisioneiros durante a guerra e só depois virou navio de tropas britânico. Foi essa única viagem ao Caribe, feita quase por acaso, que a transformaria no símbolo de um dos processos migratórios mais determinantes da história cultural britânica no século XX.

O contexto era o seguinte: o Reino Unido saía da Segunda Guerra Mundial devastado, precisando reconstruir sua força de trabalho, e o Ato de Nacionalidade Britânica de 1948 concede cidadania a todos aqueles das colônias e da Comunidade britânica ao redor do mundo. Um movimento contraditório ao que vemos das intenções britânicas e europeias no geral atualmente. Documentos oficiais mostram que, semanas antes da chegada do navio, o governo colonial na Jamaica já alertava Londres sobre o volume de passageiros que embarcariam. E como esperado, o acolhimento por parte dos britânicos foi, na verdade, tolerado em primeiro momento.
Um pequeno movimento que acabaria por alterar todo um roteiro cultural no lado europeu da história. Aos que desembarcaram no país, encontraram uma Inglaterra que precisava da sua presença, mas assim como tradição nos movimentos pós-colônia, faltou moradia, trabalho formal e um caminho a ser seguido.
Muitos dos recém-chegados se instalaram provisoriamente num abrigo antiaéreo em Clapham Common, e foi dali que boa parte seguiu para Brixton, o bairro mais próximo com posto de trabalho disponível. Seguindo o movimento de Brixton vieram Notting Hill, Tottenham e outros bolsões urbanos, que a comunidade caribenha começou a reconstruir, tijolo por tijolo, uma vida cultural inteira tirada por um sonho de progressão.

Essa tensão explodiu já em 1958. Em agosto e setembro daquele ano, gangues brancas atacaram moradores negros de Notting Hill por várias noites seguidas, nos chamados Notting Hill race riots, o primeiro episódio de violência racial em massa da Grã-Bretanha do pós-guerra. A resposta mais duradoura a esse episódio não veio da polícia nem do governo, veio de uma jornalista trinitária chamada Claudia Jones. Fundadora do primeiro jornal negro britânico, o West Indian Gazette, Jones organizou em janeiro de 1959, no St Pancras Town Hall, um carnaval caribenho indoor, transmitido pela própria BBC, como resposta cultural deliberada ao racismo que a cidade mostrou. Foi um gesto político, uma forma de reivindicar espaço público através de identidade, não de confronto direto. Esse carnaval indoor é o embrião direto do que, anos depois, sob outras mãos, se tornaria o Notting Hill Carnival de rua.
A resposta mais forte viria então de frequência direta à expressão cultural que mais evolui nas massas, em qualquer canto do mundo. A música.
Os jamaicanos trouxeram consigo a cultura de sound system, um modelo nascido em Kingston nos anos 1950 em que caixas de som gigantes, montadas por equipes inteiras e MCs, em uma disputa por espaço e prestígio em bailes. Na Inglaterra, essa estrutura virou uma das poucas formas de a comunidade caribenha ocupar espaço público em seus próprios termos.
Em Londres, esse modelo se replicou quase que integralmente: Cecil Rennie fundou o King Tubby's Hi-Fi em Brixton em 1970, o talvez mais novo Sound System do local. Em 1973, estenderam para criar o Notting Hill Carnival, consolidando o carnaval como o principal palco público da cultura caribense na cidade.

Esse momento marcava um claro caminho de desenvolvimento da cultura jamaicana no local, junto do aumento da criminalidade e preconceito sofrido pelas primeiras gerações que ali cresciam.
Antes do dub virar uma linguagem própria em solo britânico, já era o ska que circulava entre os imigrantes recém-chegados nos anos 1960, música rápida, nascida em Kingston como resposta local ao R&B americano. Foi essa música que os mods, subcultura da juventude operária britânica, descobriram nos guetos e nos bailes, adotando o gênero, o estilo e parte da estética rude boy como própria.
Esse mesmo policiamento hostil que marcava os bairros caribenhos teve seu capítulo mais emblemático em 1970, no Mangrove, restaurante caribenho de Frank Crichlow em Notting Hill que virou ponto de encontro de intelectuais e ativistas negros. Entre janeiro de 1969 e julho de 1970, a polícia invadiu o local doze vezes sob a alegação de tráfico de drogas, sem nunca encontrar nada. Em resposta, cerca de 150 pessoas marcharam até a delegacia local em agosto de 1970. Nove manifestantes, entre eles Crichlow e o ativista Darcus Howe, foram processados por incitar um motim. O julgamento, que ficou conhecido como Mangrove Nine, durou 55 dias e terminou com a absolvição de todos nas acusações mais graves, mas seu peso histórico está em outro lugar: foi o primeiro caso em que a Justiça britânica reconheceu oficialmente que a Polícia Metropolitana agia motivada por ódio racial. Não era mais só uma comunidade dizendo que sofria perseguição, era o próprio sistema judicial admitindo isso por escrito.
A virada mais decisiva aconteceu na segunda metade dos anos 1970, quando a crise econômica, o desemprego em massa e o avanço eleitoral da extrema direita criaram o terreno mais hostil que a comunidade negra britânica enfrentaria desde a chegada do Windrush. A National Front, partido de extrema direita e com políticas claras anti imigrantes, vinha crescendo, e em agosto de 1976, durante um show em Birmingham, Eric Clapton declarou apoio ao político anti-imigração Enoch Powell e chegou a repetir o slogan da National Front pedindo para "manter a Inglaterra branca". A resposta veio de um grupo de fotógrafos e ativistas liderados por Red Saunders, que publicou uma carta nas revistas musicais da época cobrando a hipocrisia de Clapton, um músico branco que construíra carreira sobre blues negro, defender publicamente o racismo. Nascia ali o Rock Against Racism.

Entre 1976 e 1982, o movimento organizou shows, carnavais e turnês que colocavam bandas punk e reggae lado a lado no mesmo palco, uma aliança que hoje parece óbvia, mas que na época era um gesto político deliberado. Punks como o Clash e a X-Ray Spex de Poly Styrene dividiam cartaz com grupos reggae como Steel Pulse e Misty in Roots. O ápice foi em abril de 1978, quando cerca de 100 mil pessoas marcharam de Trafalgar Square até o Victoria Park, no leste de Londres, território historicamente disputado pela National Front, para um show ao ar livre organizado junto com a Liga Anti Nazi.
Nas eleições seguintes, em 1979, a Frente Nacional lançou 303 candidatos e não conseguiu eleger nenhum, com uma fatia irrisória dos votos. Não foi só a música que derrubou a extrema direita britânica daquele momento, mas ela cumpriu um papel real, e mensurável, nesse processo.
Enquanto isso, em Coventry, cidade industrial do centro da Inglaterra que vivia o colapso das fábricas automotivas, um estudante de arte chamado Jerry Dammers fundava a Specials e, em seguida, o próprio selo, o 2 Tone Records, em 1979. A proposta era fundir o ska jamaicano da década anterior com a agressividade e a urgência do punk, tocado por bandas deliberadamente birraciais, tanto na composição quanto no discurso. O símbolo do movimento virou o quadriculado preto e branco, xadrez que Dammers recuperou da estética mod dos anos 1960 e ressignificou como declaração direta de unidade racial. Bandas como The Selecter, com Pauline Black à frente, e The Beat, com o saxofonista jamaicano Saxa, levaram esse recado às paradas nacionais. Quando a Specials lançou "Ghost Town" em 1981, uma canção sobre o esvaziamento industrial e o desespero da era Thatcher, o single chegou ao topo das paradas na mesma semana em que uma onda de tumultos raciais explodia em várias cidades inglesas.

Ainda assim, é complexo citar os skinheads nesse contexto. Afinal, uma das subculturas mais replicadas e conhecidas do mundo nasceu da fusão entre os rude boys jamaicanos e a cena cultural britânica dos mods. Inicialmente, o movimento surgiu como uma resposta ao tradicionalismo, alimentado pela rebeldia e revolta daquela juventude. Porém, após alguns anos, suas ideias foram deturpadas, e a mensagem transmitida por uma vertente dos skinheads passou a ser associada a movimentos nacionalistas e ao neofascismo, vertentes que ganharam força a partir da década de 1980.
A linhagem sonora que começou nos sound systems de Brixton não parou no reggae nem no 2 Tone. Ela seguiu mutando, subterraneamente, por décadas. Alimentaram o breakbeat hardcore do fim dos anos 1980, que por sua vez, já nos anos 1990, deu origem ao jungle, gênero nascido direto do cruzamento entre rave britânica e cultura sound system jamaicana.
Do jungle nasceu o UK garage, e do garage, já na virada dos anos 2000, surgiu o grime, num leste de Londres marcado por bairros como Bow e Newham, transmitido inicialmente por rádios piratas como a Rinse FM. O parentesco não é só de batida. A entonação do MC de grime, o jeito de despejar dezesseis compassos seguidos numa cadência quase de combate, remonta diretamente ao toasting jamaicano dos sound systems dos anos 1960, quando o DJ improvisava por cima do instrumental. Artistas como Dizzee Rascal e Wiley, ao colocarem seus próprios sotaques do leste londrino no centro da narrativa, completaram um ciclo que começou meio século antes, no convés de um navio requisitado da Alemanha nazista.

Esse sotaque, aliás, é ele mesmo herança direta dessa história. O patois jamaicano, falado dentro de casa por gerações inteiras em Brixton, Tottenham e no leste de Londres, foi se infiltrando na fala da juventude local, branca, negra, asiática, até formar o que linguistas hoje chamam de Multicultural London English, o sotaque que qualquer pessoa de fora reconhece como "gíria de Londres jovem". Palavras como "wagwan", "bare" ou "ends" não são gírias soltas, são resíduos vivos de uma língua que atravessou o Atlântico dentro da bagagem dos primeiros passageiros do Windrush e nunca mais saiu das ruas por onde passou.
O Arsenal, sediado em Islington, bairro fronteiriço com áreas de forte assentamento caribenho e africano como Hackney e Finsbury Park, virou nos anos 1970 um dos poucos espaços públicos onde a comunidade negra local podia ocupar as arquibancadas com visibilidade, justamente no momento em que a National Front tentava transformar estádios ingleses em território de recrutamento. Não era um projeto consciente do clube, mas a proximidade geográfica e a presença negra crescente nas arquibancadas de Highbury criaram, ao longo de décadas, uma identificação que se aprofundaria nos anos 1990 com jogadores como Ian Wright, e depois com Thierry Henry e Patrick Vieira. Em 2002, o Arsenal se tornou o primeiro clube da Premier League a escalar nove jogadores negros numa mesma partida. O vínculo entre o clube e a cultura negra britânica se tornou, para muitos torcedores, tão identitário quanto o próprio resultado das partidas.

Setenta e oito anos depois da chegada do Windrush, é praticamente impossível separar o que é "cultura britânica" do que é herança caribenha dentro dela. O carnaval que hoje toma as ruas de Notting Hill todo agosto, os sound systems que ainda ocupam Brixton, o vocabulário que migrou do patois jamaicano para a gíria londrina, os julgamentos que reescreveram a própria relação entre polícia e comunidade negra, a genealogia sonora que vai do ska ao grime, passando pelo punk, pelo dub e pelo jungle: tudo isso são camadas geológicas do mesmo processo, o de uma comunidade que chegou sendo tratada como provisória e acabou reescrevendo, de dentro para fora, o som, a língua e a imagem de um país inteiro. O que a Inglaterra tentou conter em 1948 como um problema de mão de obra terminou sendo, décadas depois, uma das poucas heranças culturais britânicas do pós-guerra genuinamente capazes de atravessar fronteiras.
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