Estamos nos acostumando com a estética de IA?

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Historicamente, tendências de design se renovam conforme as ferramentas, referências e linguagens de cada época. O trabalho visual de um período acaba registrando, de maneira quase inevitável, as condições que o produziram. Tipografias, técnicas de impressão, softwares, câmeras e plataformas já transformaram a maneira como imagens são produzidas e consumidas. Nesse sentido, toda estética também é um retrato de seu próprio tempo.

Entretanto, com o avanço massivo de ferramentas de Inteligência Artificial, o impacto chegou aos meios artísticos e também ao design. Em crescimento desde o ano de 2022, foi em 2023 que o ChatGPT apresentou sua atualização que permitia aos usuários criarem livremente imagens a partir de prompts simples no chat. O recurso de geração de imagens foi integrado nativamente ao ChatGPT em outubro de 2023, por meio da atualização que introduziu o modelo DALL·E 3.

A partir daí, nos deparamos não somente com o uso da ferramenta como auxílio para ajustes em imagens, ou até mesmo com o mau uso empregado, como no caso da criação de falsas imagens e etc. O que vimos foi a criação de uma estética única, atingida apenas por ferramentas como o ChatGPT, que não busca se aproximar de nenhuma tendência estética ou coisa do tipo, e sim gerou um estilo “artístico” artificial.

Movimento que começou, talvez, pela trend de criar com IA artes que replicavam os traços do Studio Ghibli, dada a proporção que ganhou hoje, paira uma pergunta no ar: estamos nos acostumando com essa estética?

Anúncios de grandes lojas, publicidades, fotos de produtos em aplicativos de comida e até mesmo campanhas publicitárias, o que antes funcionava para diferenciar está hoje se baseando em um software que, por mais avançado que seja, apenas replica sua imensa nuvem de dados, mas não é capaz de criar algo do zero.

Um exemplo é o comercial de final de ano de Coca-Cola em 2024, tradicional filme produzido pela marca a cada ano e que marca o início do clima de natal, foi o primeiro da marca produzido inteiramente com Inteligência Artificial generativa, recriando o clássico anúncio "Holidays Are Coming" de 1995. O vídeo ficou extremamente marcado por deixar explícito a estética da IA, transformando frames estáticos em vídeos, sem a mesma fluidez humana ou de CGI, expondo a estética robótica ou até mesmo “sem alma”, de conteúdos feitos inteiramente com o lado artístico de AI.

O crescimento massivo desse mau uso impacta não somente o mundo artístico, mas acostuma nossa visão a apenas estranhar e identificar a utilização de IAs, e não questionar se o uso está sendo feito da maneira correta.

A criação desse costume gera ainda a possibilidade de estarmos caminhando para uma comunicação visual cada vez mais parecida. Se diferentes marcas, restaurantes e empresas passam a utilizar as mesmas ferramentas para produzir suas imagens, parte das escolhas que antes dependiam de um olhar específico pode começar a ser substituída por soluções encontradas dentro de um mesmo repertório.

Isso não significa que toda imagem produzida por inteligência artificial seja igual. As ferramentas permitem uma quantidade praticamente ilimitada de combinações, estilos e resultados, mas o problema está na repetição dos padrões. Quanto mais pessoas recorrem às mesmas plataformas para solucionar problemas semelhantes, maior a possibilidade de que determinadas formas, enquadramentos, iluminações e referências apareçam novamente.

É uma contradição interessante. A promessa da inteligência artificial é ampliar as possibilidades de criação, mas sua popularização também pode fazer com que mais pessoas recorram às mesmas respostas. A ferramenta oferece milhares de possibilidades, mas o resultado final pode acabar preso a um repertório que reconhecemos justamente por sua repetição.

Mas existe uma diferença importante entre utilizar a inteligência artificial como parte de um processo criativo e utilizá-la como substituta de uma decisão criativa. No primeiro caso, a ferramenta pode ampliar possibilidades. No segundo, pode simplesmente oferecer uma resposta rápida para algo que antes exigia uma escolha.

Talvez seja por isso que a discussão sobre a estética da IA não deva ficar restrita à aparência dessas imagens. Devemos nos atentar afim de entender que, o que está mudando não é apenas a forma como produzimos uma fotografia, uma ilustração ou uma campanha, mas o quão acostumados estamos ficando com esse tipo de estética em nosso dia-a-dia.