Livia sobre os novos caminhos entre creator e direção criativa

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Conhecida por construir uma identidade visual própria nas redes, Livia Nunes começa a expandir seu repertório para além do papel de creator. Na campanha Pre-Fall 2026 da Paris Texas, ela assumiu simultaneamente a frente e os bastidores das câmeras, protagonizando o projeto e assinando sua direção criativa.

Partindo de referências do verão dos anos 1990, Livia construiu uma narrativa de manhãs lentas e finais de tarde quentes, conduzindo decisões que passaram por casting, styling, cenário e linguagem fotográfica. A experiência materializa um movimento que já vinha acontecendo em sua trajetória: transformar o conhecimento desenvolvido nas redes sobre imagem, comportamento e desejo em ferramenta para construir universos para outras marcas.

Esse caminho também levanta uma discussão cada vez mais presente no mercado de influência: até onde pode ir o papel de um creator? Para Livia, o próximo passo está em incluí-los desde o início dos processos, reconhecendo sua capacidade de contribuir não apenas como imagem ou mídia, mas também na definição de conceitos, linguagens e posicionamentos.

Em conversa com o NOTTHESAMO, Livia Nunes fala sobre sua transição para a direção criativa, os bastidores da campanha para a Paris Texas, seu último trabalho autoral realizado no México, a relação entre repertório digital e criação e os próximos passos de uma carreira que começa a ganhar novos espaços também atrás das câmeras. Confira abaixo:

NOTTHESAMO: Você construiu uma identidade visual muito reconhecível nas redes. Em que momento percebeu que esse repertório poderia deixar de existir apenas na sua imagem pessoal e passar a orientar campanhas e narrativas para outras marcas?

Livia: Foi um caminho gradual. Ao longo do tempo, percebi que as pessoas não reagiam apenas às roupas que eu usava, mas também a uma forma de contar histórias por meio das imagens.

Quando as marcas começaram a me chamar para pensar o universo de uma campanha em conjunto, entendi que esse repertório fazia sentido para além do meu perfil pessoal e podia dialogar com outros lugares também.


NTS: Na campanha Pre-Fall 2026 da Paris Texas, você esteve diante das câmeras, mas também assumiu a direção criativa. Como foi equilibrar esses dois papéis sem transformar o projeto apenas em uma extensão da sua própria imagem?

L: Esse equilíbrio aconteceu de forma bem fluida, porque procurei que os dois papéis conversassem entre si. Eu dirigia pensando em como a cena iria ficar diante da câmera e, quando estava na frente dela, seguia confiando na direção que eu mesma havia construído.

Mantive em mente que a campanha era maior do que eu, ela trazia uma narrativa em torno de um grupo de amigos e que eu era uma peça dele.

NTS: O que partiu diretamente do seu olhar nessa campanha, da construção da narrativa às escolhas de cenário, styling, casting e fotografia, e como você organizou esse processo criativo?

L: Tudo começou com um moodboard, em que fui reunindo diversas referências antes da parte prática. A minha ideia central era passar uma visão do verão dos anos 1990, com manhãs lentas e o calor do fim de tarde. A partir desse ponto de partida, fui construindo cada elemento junto ao time, pensando em como traduzir essa atmosfera para a campanha. O casting foi pensado como um grupo real de amigos, o styling buscou esse mesmo aspecto effortless, sem parecer produzido, e o cenário foi escolhido para transmitir a sensação de um lugar de verdade, não de um set.

Também participei da construção da linguagem das imagens, pensando em como a fotografia poderia acompanhar essa narrativa de forma natural. No fim, o processo foi muito colaborativo, mas sempre partindo dessa visão inicial e de como cada escolha poderia contribuir para contar a história.


NTS: Ainda existe uma tendência de enxergar creators principalmente como mídia ou como rostos capazes de gerar alcance. O que precisa mudar dentro das marcas para que eles sejam reconhecidos também como profissionais capazes de construir conceito, estética e posicionamento?

L: Estamos avançando bastante na ampliação dessa visão de que o creator também pode contribuir para o conceito, e isso vem sendo levado em consideração de uma forma muito positiva.

Na minha experiência, isso acontece principalmente com marcas que entendem que experimentar formatos, cores e narrativas e observar como as pessoas respondem a isso também desenvolve um olhar estratégico.

Acredito que o próximo passo é reconhecer esse conhecimento e dar mais espaço para que os creators participem das decisões e tragam seu olhar desde o começo, não apenas como imagem, mas também na definição da linguagem e do posicionamento.

NTS: Quando você trabalha na direção criativa de uma campanha, o conhecimento adquirido nas redes, sobre comportamento, desejo e resposta do público, influencia suas decisões? Como equilibrar esse olhar estratégico com a liberdade de criar algo inesperado?

L: Com certeza, esse repertório influencia bastante o meu trabalho. As redes sociais me permitiram aprender enquanto fazia, testando o que prende a atenção, o que passa despercebido e como as pessoas respondem a diferentes formas de contar uma história.

Ao mesmo tempo, procuro não transformar isso em uma fórmula. Uso o que aprendi como ponto de partida, mas deixo espaço para experimentar e descobrir novos caminhos. Acho que esse equilíbrio entre entender o público e continuar aberta ao inesperado é o que torna a criação mais interessante.


NTS: Agora falando do seu último projeto, feito no México. “Arquivo Vivo” foi desenvolvido com uma equipe formada por profissionais mexicanos, entre fotógrafos, stylist, beauty artist e artesãos. Como essa colaboração local contribuiu para a construção da narrativa e ampliou seu próprio olhar sobre a cultura do país?

L: Trabalhar com uma equipe inteiramente local foi fundamental para que o projeto nascesse com verdade, sob o olhar de quem sempre bebeu dessa cultura. Cada profissional envolvido trouxe camadas de conhecimento de quem vive essas tradições no cotidiano. Sempre admirei a profundidade e a potência criativa da moda mexicana atual e sua conexão com as raízes do país, então nesse contato próximo pude enxergar como a moda se mantém e atualiza na cultura viva, além do trabalho de designers independentes que traduzem essa ancestralidade sob um olhar contemporâneo.

NTS: Ao contrário de campanhas em que sua imagem ocupa o centro, em “Arquivo Vivo” você se posiciona como testemunha, enquanto as mulheres mexicanas assumem o protagonismo da narrativa. O que essa escolha representa para você e como ela reflete a diretora criativa que deseja se tornar?

L: Eu queria estar ali como alguém que observa, aprende e agradece. Colocar as mulheres mexicanas no centro da narrativa foi uma forma de reconhecer que elas são as verdadeiras guardiãs dessas tradições, e meu papel era ajudar a contar essa história com cuidado e respeito. Acredito que a diretora criativa que quero me tornar é aquela que aprende durante o próprio processo, que busca estar em ambientes e narrativas que a enriquecem, em vez de simplesmente ocupar o centro delas. Essa escolha foi intencional e representa um amadurecimento importante para mim. Passei a entender que dirigir também é abrir espaço, e essa foi a grande aprendizagem por trás de "Arquivo Vivo".

NTS: Depois dessa experiência, como você imagina os próximos passos da sua carreira? A direção criativa é um caminho que pretende aprofundar, inclusive em projetos nos quais não necessariamente apareça diante das câmeras?

L: Essa é uma frente que tenho muita vontade de aprofundar, porque faz sentido para mim pensar em campanhas inteiras, e não apenas em como eu me encaixo dentro delas. Sinto que essa experiência abriu uma porta que já vinha se desenhando há algum tempo por meio do trabalho nas redes, e agora quero continuar estudando, buscando referências, criando ao lado de pessoas incríveis e aprendendo com cada novo projeto.

Também aproveito para me focar em projetos pessoais, ou projetos que me procuram e que posso colaborar de alguma forma. Esse ano fiz 4 projetos que me deixaram muito felizes: Um projeto fotográfico para o Ballet Paraisópolis, onde pude acompanhar o backstage da apresentação dos alunos da comunidade; um shooting autoral incrível no México que valoriza os profissionais e cultura local, um projeto autoral no Rio de Janeiro que reflete minha visão sobre o Carnaval.