Hermeto Pascoal: os 90 anos de um gênio

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Poucos artistas brasileiros conseguiram construir uma obra tão difícil de classificar quanto Hermeto Pascoal. Pianista, multi-instrumentista, compositor, arranjador e improvisador, ele passou mais de seis décadas expandindo os limites da música instrumental ao ponto de transformar chaleiras, brinquedos, panelas, animais, máquinas e até a fala humana em matéria-prima para composição. Em um país acostumado a separar o erudito do popular, Hermeto sempre caminhou na direção oposta, criando uma linguagem que absorve frevo, baião, choro, jazz, música de concerto, ritmos nordestinos e sons do cotidiano com a mesma naturalidade.

Nascido em 22 de junho de 1936, no município de Lagoa da Canoa, interior de Alagoas, Hermeto cresceu em um ambiente rural onde o contato com a música acontecia inata a sua formação como ser. Filho de agricultores, passou parte da infância trabalhando no campo e convivendo com os sons dos animais, do vento, das ferramentas e da natureza, elementos que décadas depois apareceriam de forma explícita em suas composições. O fato de ter nascido com albinismo também influenciou profundamente sua infância. Sensível à luz intensa do sertão, passava muitas horas dentro de casa, desenvolvendo uma relação íntima com instrumentos musicais e com a escuta.

Sua formação foi essencialmente autodidata. Ainda criança começou a tocar sanfona observando músicos da região e experimentando possibilidades por conta própria. A ausência de uma educação musical formal acabou se tornando uma vantagem criativa. Em vez de seguir regras rígidas de harmonia ou técnica, Hermeto desenvolveu uma compreensão intuitiva da música, baseada na curiosidade permanente e na experimentação.

Na juventude, mudou-se para Recife, onde passou a tocar em rádios e conjuntos regionais. Pouco depois seguiria para São Paulo, centro da indústria fonográfica brasileira, ampliando seu contato com músicos de diferentes tradiades. Foi nesse período que participou de grupos como o Sambrasa Trio e, posteriormente, do Quarteto Novo, ao lado de Airto Moreira, Heraldo do Monte e Theo de Barros.

Embora tenha existido por poucos anos, o Quarteto Novo ocupa um lugar fundamental na história da música brasileira. Em pleno contexto da década de 1960, o grupo aproximou elementos do jazz moderno da música nordestina e abriu espaço para uma geração de instrumentistas que buscava novas possibilidades harmônicas sem abandonar referências populares. O único álbum lançado pelo conjunto continua sendo considerado um dos registros mais importantes da música instrumental produzida no país.

Essa capacidade de transitar entre universos chamou atenção também fora do Brasil. No início dos anos 1970, Hermeto aproximou-se da cena internacional do jazz e passou um período nos Estados Unidos, onde desenvolveu uma relação de amizade e colaboração com Miles Davis.

O encontro entre os dois se tornou parte do folclore da música contemporânea. Segundo relatos do próprio Hermeto, eles se conheceram nos bastidores de uma apresentação do percussionista Airto Moreira, quando foram para a casa de Miles em Nova York. Antes mesmo de falarem sobre gravações, o trompetista resolveu testar o ouvido do brasileiro tocando notas ao piano para que ele as identificasse instantaneamente. Hermeto acertou todas. Em seguida, a visita tomou um rumo inesperado: Miles o convidou para um ringue de boxe montado na própria residência. Durante a brincadeira, Hermeto, que possui limitações visuais em razão do albinismo, acabou desferindo um golpe que atingiu o rosto do músico americano. O episódio, lembrado com humor por ambos ao longo dos anos, acabou aproximando ainda mais os dois artistas.

A amizade rapidamente se transformou em colaboração musical. Hermeto participou das sessões que dariam origem ao histórico álbum Live-Evil, lançado em 1971, contribuindo diretamente com composições como “Igrejinha”, que no disco apareceu sob o título “Little Church”, e “Nem Um Talvez”. O lançamento, no entanto, veio acompanhado de uma controvérsia: na edição original do álbum, as faixas foram creditadas a Miles Davis em vez de reconhecer formalmente a autoria do compositor brasileiro. A situação gerou críticas de músicos e observadores da cena, levantando discussões sobre apropriação e reconhecimento artístico. Hermeto, porém, adotou uma postura conciliadora ao longo da vida e sempre afirmou que não guardava ressentimentos, tratando Miles como um amigo e um dos artistas mais extraordinários com quem dividiu experiências.

Independentemente da polêmica, a aproximação entre os dois ajudou a apresentar Hermeto para um circuito internacional de músicos interessados em improvisação e experimentação sonora. Miles Davis chegou a fazer elogios públicos ao brasileiro e declarou que gostaria de “renascer como Hermeto Pascoal”, frase que se tornaria uma das demonstrações mais conhecidas da admiração entre dois dos nomes mais inventivos da música do século XX.

Ao longo das décadas, desenvolveu aquilo que muitos chamam de "música universal", conceito utilizado pelo próprio artista para defender uma criação livre de fronteiras estilísticas. Em sua visão, qualquer manifestação sonora pode carregar musicalidade quando organizada de forma criativa. Um discurso político, o canto dos pássaros, o barulho da água ou uma conversa casual possuem potencial para se transformar em composição.

Essa filosofia aparece de maneira evidente em suas apresentações ao vivo. Não são raros os registros em que Hermeto utiliza chaleiras cheias de água, brinquedos infantis, garrafas, utensílios de cozinha ou objetos encontrados no próprio palco para produzir timbres inesperados. Em vez de tratar esses elementos como curiosidades, ele os incorpora de maneira orgânica à estrutura musical, reforçando uma visão de que a criatividade depende mais da escuta do que dos instrumentos disponíveis.

Outro aspecto marcante de sua trajetória é a impressionante produtividade. Hermeto desenvolveu o chamado "Calendário do Som", projeto no qual escreveu uma composição para cada dia do ano, reunindo centenas de peças que hoje funcionam como exercício criativo, arquivo musical e proposta pedagógica ao mesmo tempo. A iniciativa sintetiza sua disciplina e sua relação quase cotidiana com o ato de compor, demonstrando que experimentação e rigor podem caminhar lado a lado.

Existe também uma dimensão profundamente brasileira em sua produção. Embora dialogue com o jazz, a improvisação e a música de concerto, Hermeto jamais rompeu com suas raízes nordestinas. Ritmos populares, melodias inspiradas no interior do país e referências à cultura regional aparecem continuamente em sua discografia, demonstrando que sua experimentação nunca significou abandono da identidade local.

Talvez seja justamente essa a principal contribuição de Hermeto para a cultura brasileira. Mais do que criar discos ou desenvolver técnicas instrumentais, ele ampliou a própria noção do que pode ser entendido como música. Em sua obra, o cotidiano deixa de ser apenas cenário e passa a integrar a composição, fazendo com que uma panela, uma respiração, uma voz ou o som da chuva tenham o mesmo potencial expressivo que um piano de concerto ou uma grande orquestra.

Hermeto nos deixou ano passado, e completaria 90 anos hoje. Celebrar sua carreira é também manter seu legado da busca incessante por novos meios de fazer música.