O legado de Virgil Abloh virou uma escola

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Durante boa parte da sua carreira, Virgil Abloh repetiu uma ideia que ajudava a explicar quase tudo o que produziu. Da Off-White à Louis Vuitton, das capas de álbuns para Kanye West às colaborações com Nike, IKEA e Mercedes-Benz, existia uma preocupação constante em tornar visíveis processos que normalmente permaneciam escondidos. Para ele, o problema estava exatamente na distância entre talento e oportunidade. Enquanto milhares de jovens criativos produziam roupas, imagens, músicas e projetos relevantes ao redor do mundo, poucos conseguiam enxergar como funcionavam os bastidores das indústrias que desejavam ocupar.

Essa percepção não surgiu por acaso. Filho de imigrantes ganeses, criado nos arredores de Chicago e formado em engenharia civil e arquitetura, Abloh construiu sua trajetória atravessando territórios que durante muito tempo pareciam incompatíveis. Ele não seguiu o caminho tradicional da moda, não estudou em escolas especializadas na Europa e tampouco surgiu a partir dos círculos históricos do luxo.

Sua carreira foi construída ocupando espaços que durante décadas permaneceram fechados para pessoas com origens semelhantes às suas. Talvez por isso tenha desenvolvido uma obsessão tão grande pela ideia de acesso.

Virgil sempre foi conhecido por seus costumes de aproximar e sanar dúvidas de estudantes, revisar portfólios, indicar jovens profissionais para vagas e compartilhar publicamente processos criativos que normalmente ficavam restritos aos bastidores. É já conhecida por todos a ideia que Virgil tinha sobre fazer tudo pensando na versão de dezessete anos de si mesmo, um jovem tentando entender como funcionava uma indústria que parecia distante e inacessível. Quando morreu em 2021, aos 41 anos, deixou para trás não apenas uma marca ou uma série de projetos influentes, mas também uma forma específica de pensar educação, circulação de conhecimento e formação criativa.

Foi justamente dessa visão que nasceu o Abloh Air, programa criado pela Fundação Virgil Abloh para oferecer mentoria, formação e experiências culturais para jovens criativos de Chicago, cidade onde ele cresceu e construiu parte importante da sua visão de mundo.

A primeira turma recebeu o nome de Flight 000, um nome curioso e que explica grande parte das construções do programa. Toda a estrutura utiliza referências ligadas à aviação, tratando os participantes como uma tripulação e organizando cada grupo como um novo voo. A metáfora dialoga diretamente com a própria trajetória de Virgil, marcada por deslocamentos constantes entre diferentes áreas criativas, diferentes países e diferentes formas de produção cultural.

O Flight 000 foi construído a partir de três pilares centrais: acesso, exposição e desenvolvimento de liderança criativa. Na prática, isso significa criar situações que aproximem jovens criativos dos ambientes que normalmente observam apenas à distância. Durante meses, os participantes passam por mentorias, encontros profissionais, oficinas e visitas institucionais que procuram apresentar não apenas profissões específicas, mas também os caminhos possíveis para chegar até elas.

O objetivo não é formar estilistas, arquitetos ou fotógrafos de maneira tradicional, mas ampliar horizontes e tornar visíveis possibilidades que muitas vezes sequer aparecem no campo de visão desses estudantes.

Como parte do Flight 000, os participantes embarcam em uma viagem de imersão por Londres e Paris, duas cidades fundamentais para compreender a trajetória de Virgil Abloh. Paris foi onde ele alcançou um dos cargos mais importantes da história recente da moda ao assumir a direção criativa masculina da Louis Vuitton. Londres, por sua vez, ocupa uma posição singular dentro das indústrias criativas globais, funcionando há décadas como ponto de encontro entre moda, música, design, fotografia, arquitetura e cultura jovem.

Durante essa jornada, os estudantes visitam galerias, estúdios de design, escolas de arte, escritórios criativos e instituições culturais, mas a proposta vai muito além do turismo.

Ao longo da formação, os participantes tiveram contato com nomes como Tremaine Emory, Martine Rose, Samuel Ross e Jony Ive, figuras que ocupam posições centrais dentro da moda, do design e da cultura contemporânea. Existe uma percepção recorrente de que sucesso criativo depende exclusivamente de talento individual, mas a própria trajetória de Virgil aponta para outro caminho. Criatividade também depende de infraestrutura, circulação de conhecimento, orientação profissional e acesso a redes que historicamente permaneceram restritas.

Muitas vezes o obstáculo não é a ausência de capacidade técnica, porém a simples falta do entendimento sobre como entrar, conhecer os caminhos, contatos e percursos possíveis dentro de uma carreira criativa.

E nesse espaço o programa busca alterar esse tipo de percepção, focando em converter experiências, conexões e conhecimento em ferramentas concretas para jovens criativos que desejam construir suas próprias trajetórias.

O Flight 000 talvez seja a materialização mais clara dessa filosofia deixada por Virgil, longe da pretensão de formar novos Virgils ou criar uma geração específica de profissionais, mas porque parte da mesma pergunta que acompanhou sua carreira inteira: quantas pessoas talentosas permanecem invisíveis simplesmente porque nunca tiveram acesso aos espaços onde a cultura é produzida?