Keith Sutton, o fotógrafo que acompanhou a vida de Ayrton Senna
Keith Sutton foi um jovem fascinado pelo automobilismo desde a infância, e ainda que existisse o sonho de correr, após ganhar uma câmera 35mm de seu pai, seu maior desejo passou a ser tornar-se um fotógrafo da Fórmula 1. Sem credenciais oficiais necessárias e sendo menor de idade, ele iniciou a trajetória frequentando circuitos locais na Inglaterra para tentar tirar fotos
e vender para publicações da época.
Até que em março de 1981, ele conseguiu um trabalho temporário para a revista brasileira Auto Esporte (e correspondentes da Autoport), que precisava de fotos de pilotos brasileiros correndo no Reino Unido.
E foi no circuito de Thruxton, em uma corrida de Fórmula Ford 1600, que conheceu Ayrton Senna.

Ao folhear o programa do evento, o sobrenome "da Silva" chamou a atenção do fotógrafo, que foi atrás de saber quem levava aquele sobrenome desconhecido. Keith passou o dia inteiro seguindo Senna pelos boxes e pela pista, registrando cada movimento. No entanto, sem saber como abordar o tímido brasileiro, não teve coragem de se apresentar. Senna terminou aquela corrida, a segunda de sua vida em carros de fórmula, na terceira posição.
O reencontro aconteceu no fim de semana seguinte, no tradicional circuito de Brands Hatch. Keith caminhava, quando percebeu que o próprio Ayrton, intrigado, estava em sua direção e o abordou de forma direta: "Por que você tira tantas fotos minhas?".

Sutton explicou que trabalhava para uma revista do Brasil, e então Senna respondeu: "Preciso de publicidade. Quero mandar fotos e textos para o Brasil quando eu começar a vencer, porque preciso de patrocinadores para parar de depender do dinheiro do meu pai. Você quer ser meu fotógrafo?". Keith aceitou ali o acordo informal de 50 libras por corrida, visto que o fotógrafo tinha em mente tentar vender as fotos por 30 libras para outros pilotos. Naquela mesma tarde Senna venceu sua primeira corrida na Europa.
No final de 1981, pressionado pela família para assumir os negócios da família no Brasil, Senna chegou a anunciar sua aposentadoria e voltou para São Paulo. Mas o brasileiro retornou à Inglaterra no início de 1982, e foi quando ambos compreenderam que dividiam as mesmas vontades. Keith passou a revelar as fotos e montar textos sobre Senna, enviados a executivos e nomes importantes da F1. Ele revelava as fotos no escuro do porão, datilografava os textos e criou um papel timbrado exclusivo com o desenho do famoso capacete amarelo de Ayrton.

Keith começou a "bombardear" os envelopes com as vitórias de Senna para os chefes de equipe da F1. O plano foi tão audacioso que, em 1982, o todo-poderoso da F1, Bernie Ecclestone, ligou para a casa dos pais de Keith procurando pelo "tal piloto Silva". Keith foi o responsável por dar o número de telefone de Senna a Bernie, pavimentando o primeiro teste de Ayrton na categoria.
Em 1984, Senna assinou com a Toleman e, como gratidão pelos anos de parceria no porão, pagou do próprio bolso a passagem e a hospedagem de Keith para que ele cobrisse o Grande Prêmio do Brasil, em Jacarepaguá. Foi a primeira cobertura internacional da vida do fotógrafo.

No entanto, com a chegada ao topo, a equipe de Senna ofereceu a Keith um contrato muito restritivo, que recusou o papel para fundar sua própria agência, a Sutton Images.
A separação nos negócios, contudo, nunca finalizou a amizade, que durou até aquele trágico 1º de maio de 1994, em Imola, onde Keith registrou o último fim de semana de seu amigo.




