Léo da Bodega e sua alquimia musical em EQUILIBRIVM

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Léo da Bodega é uma das vozes mais potentes e autênticas da nova cena musical brasileira, reconhecido por criar o que se convencionou chamar de "trap olindense". Nascido e criado nas ladeiras do Sítio Histórico de Olinda, ele cresceu imerso nas tradições do maracatu, do frevo, do coco e das escolas de samba. Léo nas últimas semanas teve seu nome popularizado devido à sua fundamental participação no álbum EQUILIBRIVM II, da cantora Anitta.

Conectando a essência cultural de Pernambuco aos holofotes da maior artista pop global do país, o pernambucano foi peça-chave na composição de faixas utilizando principalmente de sua ancestralidade para criar. Essa imersão no processo criativo de uma das principais produções de Anitta joga luz sobre as composições assinadas por Léo, como "Feitiço" (com Mart'nália) e "Sem Pressa" (com MC Tha), em que suas linhas melódicas e rimas ajudaram a traduzir os conceitos de espiritualidade e resiliência propostos para o disco.

Conversamos com Léo destrinchar justamente os bastidores desse feito e entender como o artista conseguiu transitar de suas criações, ideias e pesquisas de vida para os créditos de um dos projetos fonográficos mais grandiosos da indústria nacional. Confira a conversa completa abaixo:

NOTTHESAMO: Você participa da segunda parte do novo álbum da Anitta como compositor. Como surgiu esse convite e como foi o processo de entrar para esse projeto?

Léo da Bodega: O convite veio através do Pedro Dash, produtor dos Los Brasileros. Ele me falou que a Anitta tinha pedido músicas que conversassem com a linguagem do Equilibrium Parte I, que seria lançado junto com a turnê do álbum, e que eu poderia somar pela minha pesquisa de vida, pelo meu ponto de vista e pela minha espiritualidade. Pra mim, como compositor, participar de um projeto tão importante para a cultura afro-brasileira, da maior artista pop do país, está sendo uma realização enorme.

NTS: Em quantas faixas você assina a composição? Quais são elas?

LB: Foram três faixas:

  • I – Você Já Sabe (Los Brasileros)

  • V – Feitiço (Mart'nália)

  • IX – Sem Pressa (MC Thaa)

NTS: Como foi o processo de criação dessas músicas? Você compôs pensando na Anitta ou as faixas surgiram de outra forma até chegarem ao álbum?

LB: Foi empolgante e desafiador pela responsabilidade que o projeto carrega e pelo resultado que queríamos entregar. Mesmo à distância, a Anitta estava conectada com o Pedro, dando feedbacks praticamente em tempo real, trazendo o ponto de vista dela e mostrando como cada trecho deveria soar. Algumas músicas ela amou de primeira; outras fomos construindo juntos até chegar ao resultado.

NTS: O que essa parceria representa para você, especialmente por integrar um trabalho de uma das maiores artistas brasileiras da atualidade?

LB: Além de ser uma realização profissional enorme, pessoalmente chega a ser ainda maior, pela perspectiva que nós, compositores nordestinos, temos dentro da indústria, por conta do sotaque e da distância de onde geralmente essas obras são produzidas. É um grande marco para a música pernambucana.

NTS: Como você enxerga a sua identidade artística e autoral dentro dessas canções? Há elementos da sua trajetória, das suas referências ou da sua forma de compor que aparecem nelas?

LB: De verso inteiro a adlib, cada compositor que participou desse processo deixou algo muito valioso nas músicas, seja na perspectiva, nas melodias ou nos pontos de vista. Não sei se por ironia do destino, mas, sem saber, ela pediu para a gente escrever a partir da nossa pesquisa de vida.

NTS: O álbum Equilibrium propõe uma nova fase para a Anitta. Na sua visão, como as músicas que você assina dialogam com esse momento artístico dela?

LB: Acredito que sejam algumas das faixas que representam completamente a identidade do álbum. Todas as músicas em que participei da composição foram direcionadas para a energia, a espiritualidade, as entidades e as forças que nós cultuamos.

NTS: Temas como espiritualidade, ancestralidade, identidade ou transformação aparecem de alguma forma nas faixas que você compôs? Como essas ideias atravessam seu processo criativo?

LB: Em todas elas. Eu sou um artista de Olinda que largou tudo e veio para São Paulo tentar viver da música, cheio de incertezas em um mercado onde, independentemente da qualidade, muita coisa depende do inconsciente coletivo das pessoas. O que traz amparo e esperança é a nossa espiritualidade, a fé e os conselhos dos ancestrais, que eu acredito que me dão força de vontade para correr atrás das oportunidades. Dessa vez, foi uma oportunidade de espalhar alguns desses ensinamentos para o mundo.

NTS: O que você espera que o público sinta ou perceba ao ouvir essas músicas?

LB: Que as pessoas sejam tocadas e sintam arrepios pela mensagem de confiança e autocuidado, e pela simplicidade com que temas muito profundos foram abordados.

NTS: Há alguma história de bastidor, curiosidade ou detalhe desse processo que você gostaria de compartilhar e que ainda não tenha sido contado?

LB: Quando eu estava começando a compor, ouvia minha mãe comentar com meus irmãos que eu ficava fazendo uns "mantras" no quarto. Como eu estava de fone, ela não ouvia o instrumental e não entendia muito bem. Durante o processo de composição de Feitiço, desenvolvi um verso junto com o Chum e, nos feedbacks da Anitta, ela pedia para repetir aquele trecho como um mantra. Por mais simples que pareça, minha mãe, sem saber, estava certa no que dizia: a maior artista pop do Brasil pediu para repetir aquele trecho feito um mantra.