Um novo olhar sobre as imagens da Copa por Wide Open
A fotografia esportiva sempre foi responsável por eternizar alguns dos momentos mais marcantes da história do futebol. Mas, na era das redes sociais, até as imagens mais icônicas passaram a disputar atenção em um fluxo contínuo de publicações, onde a permanência dura apenas alguns segundos. Para o projeto Wide Open, o desafio já não é produzir novas fotografias, mas encontrar maneiras de fazer com que elas continuem sendo vistas.
É dessa inquietação que surge o Wide Open Newspapers, um projeto que transforma registros históricos da Copa do Mundo em jornais impressos pensados para serem lidos, colecionados e interpretados de maneiras fora do convencional. Recuperando imagens do passado e também reposicionando elas no presente, trazendo para o modo em que compreendemos esse tipo de criação.

Em conversa, os criadores refletiram sobre a escolha do jornal como suporte, o papel das imagens físicas em um cenário dominado pelo digital e a tentativa de devolver ao futebol algo que as redes sociais parecem consumir cada vez mais rápido: tempo. Confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: Como o projeto World Cup Newspapers funciona, na prática, para "desacelerar" essas imagens icônicas e incentivar o público a se relacionar com elas de forma mais profunda?
WIDE OPEN: Queremos que as pessoas convivam com a imagem.
Uma fotografia na parede é um objeto completamente diferente de uma imagem vista no feed. Ela ocupa espaço, faz parte do ambiente e é vista todos os dias. Não é possível simplesmente passar por ela com um deslizar de dedo. Ao conviver com essa imagem, cria-se uma relação afetiva com ela — e, consequentemente, com o personagem e o momento que ela representa. Ter Ronaldinho na parede não é a mesma coisa que dar um duplo toque em uma publicação.
Essas fotografias, sejam elas familiares ou inéditas para quem as vê, carregam dentro de si jogadores, histórias e contextos. Quando são impressas, seguradas nas mãos e incorporadas ao cotidiano, elas se transformam. Deixam de ser apenas conteúdo e passam a ser algo que vale a pena guardar. É exatamente isso que esperamos que uma imagem faça.
Fazemos isso de algumas maneiras. Primeiro, retiramos a fotografia do ambiente das redes sociais e a imprimimos em um formato grande, para que ela precise ser observada em vez de apenas consumida rapidamente. Depois, acrescentamos contexto, acompanhando cada imagem de textos sobre aquele momento, o jogador e a história por trás dela — justamente o oposto da lógica de um feed, que incentiva a velocidade e não a permanência.
Também fazemos uma curadoria guiada por um olhar de 2026, fazendo com que momentos históricos pareçam atuais, e não apenas nostálgicos. As imagens de Ronaldinho, James Rodríguez e Messi poderiam perfeitamente ter sido feitas hoje. Já a fotografia da seleção espanhola dialoga com a linguagem visual contemporânea, entre a seriedade e a ironia.
Tudo isso converge para um único objetivo: criar uma imagem com a qual seja possível conviver. Uma fotografia na parede ocupa um lugar físico, é vista diariamente e não desaparece após alguns segundos. Por isso, a relação construída com ela é completamente diferente daquela criada por uma curtida nas redes sociais.
Esse é, no fim das contas, o propósito do projeto: pegar um momento que todos já viram inúmeras vezes e transformá-lo em algo que possa ser preservado, em um objeto físico, e não apenas em mais um conteúdo que passa diante dos olhos.

NTS: De onde surgiu a ideia de apresentar essas reflexões em um jornal, em vez de um zine ou de um fotolivro, formatos mais comuns para esse tipo de projeto?
WO: O que mais nos atrai no jornal é justamente sua acessibilidade e a contradição que ele representa.
Ele é um objeto que pode ir para a parede. Essa foi a primeira ideia. Você o lê e, depois, pode pendurá-lo, fazendo com que o mesmo objeto se transforme em um pôster. Um zine ou um fotolivro normalmente termina em uma estante. O jornal, por outro lado, se abre e passa a ocupar um espaço na casa.
Além disso, o jornal é um objeto descartável por natureza. Foi criado para ser lido uma única vez e jogado fora. Imprimir arte sobre esse suporte é quase como fazer um grafite: inserir imagens em um meio que nunca foi pensado para carregá-las dessa forma.
Existe nisso uma energia punk, mas também um aspecto profundamente democrático. Um fotolivro costuma ser caro e tratado como um objeto precioso. Já o jornal é barato, grande, imediato e acessível. Ele coloca arte de verdade nas mãos de muito mais pessoas, sem qualquer pretensão. É, ao mesmo tempo, alta moda e cultura punk.
NTS: Quais são os próximos projetos da agência que também exploram essa ideia de "materializar" imagens como forma de criar novas experiências para o público?
WO: Temos muitos planos.
Ao longo do próximo ano, vamos lançar novas edições destacando artistas, seguindo o modelo da primeira edição realizada com a Nike, apresentando o trabalho de criadores que admiramos.
Também continuaremos explorando momentos marcantes do futebol, tanto durante a Copa do Mundo quanto depois dela, com o retorno das ligas nacionais.
Além disso, publicaremos jornais exclusivos em parceria com músicos e realizaremos eventos em diferentes cidades.
No fundo, todos esses projetos giram em torno da mesma pergunta: qual é o papel de uma imagem nos dias de hoje?

NTS: De certa forma, o jornal representa uma rejeição ao modelo dominante de consumo de mídia, especialmente em uma Copa do Mundo quase totalmente digitalizada, em que muitas análises e discussões acabam se perdendo nas redes sociais?
WO: Sim. É uma rejeição.
Hoje, praticamente nada permanece online por mais de trinta segundos. Tudo passa muito rápido.
Esta Copa do Mundo está apresentando o torneio a uma nova geração de torcedores, e queríamos oferecer a eles um senso de história: mostrar o que essa competição representa e quem ajudou a construir seu legado.
Para quem acompanha futebol há muitos anos, queríamos proporcionar um lembrete da beleza desse esporte — um lembrete que não simplesmente desaparecesse no fluxo interminável do feed. São jogadores e momentos que marcaram nossas vidas, mas que raramente recebem esse tipo de atenção nas redes sociais.
Se tivéssemos feito esse projeto em 1984, provavelmente não haveria nenhuma discussão sobre a forma como consumimos imagens. Seria apenas um jornal.
Mas, em 2026, essa escolha carrega um significado. Queremos devolver às pessoas um senso de história, encantamento e beleza que hoje costuma desaparecer quase tão rapidamente quanto surge.
Queremos que as pessoas convivam com a imagem.





