Caio Ocean e os caminhos percorridos até “Nova Nação”
Caio Ocean é um dos nomes mais originais da nova cena musical brasileira, destacado pela sua capacidade em criar um universo para suas músicas, tem consigo o fator da identidade criada de maneira totalmente independente. Após o aclamado projeto “Garoto Oceano”, Caio encontrou uma nova sonoridade em "Nova Nação", refletindo sua recusa em se prender a fórmulas comerciais ou ao "cercado" do boombap.

Enxergando suas faixas como um compilado de testes sonoros, o artista prioriza a liberdade criativa e a expressão de sua vibração atual em detrimento de valores monetários. Essa busca por autonomia dita também seu método de gravação inteiramente feito pelo celular; longe de ser um improviso, o formato tornou-se sua própria linguagem estética e operacional, permitindo que ele trabalhe de forma autodidata, solitária e sem as interferências de um estúdio tradicional para traduzir suas texturas de voz.
O álbum propõe o conceito de uma "Nova Nação", um multiverso cujos fragmentos e interlúdios visuais convidam o público a refletir sobre o futuro. Através dessa narrativa, conversamos com Caio para compreender o caminho percorrido até o novo projeto e suas convicções sobre o que foi criado. Confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: Depois de construir uma identidade tão forte com Garoto Oceano, em que momento você percebeu que era hora de deixar uma fórmula que estava funcionando para experimentar um caminho completamente diferente?
Caio Ocean: Acho que não esperava uma fórmula. Estava em um momento muito verdadeiro, vinculado a sonoridade de Garoto Oceano, tentando me distanciar das comparações com outros cantores e fazendo algo que soasse como eu me via.
Ainda mudo de opiniões sobre mim mesmo toda hora e apesar de estar tendido a me contradizer, não gosto tanto dos apontamentos. Acho que foi o que tinha que ser, talvez eu mude e volte a sonoridade do projeto novo mais vezes, talvez faça algo novo. Vejo minhas faixas, de certa forma, como um compilado de testes sonoros. Não viso como foco valores monetários, conforto é bom. Quem não gosta? Mas quero poder ter a mente livre pra criar. A “caixa de boombap” pra mim nunca existiu, sempre curti fazer outros gêneros. Particularmente não vou ficar me remoendo e gastando minha mentalidade batendo cabeça pra fazer música que não reflita minha vibe atual. Sem apego mas com muito respeito e gratidão.

NTS: O álbum propõe uma "Nova Nação". Que tipo de país, comunidade ou geração existe nessa ideia? Ela é uma distopia sobre o presente ou uma possibilidade de futuro?
CO: Vou responder essa com um trecho que escrevi. Em algumas das minhas ideias para o projeto, teríamos uma espécie de diário de bordo, que acompanharia o lançamento e interlúdios visuais. Mas também paralelo a isso, se constrói um multiverso. Após a viagem, alguns conceitos são trazidos para Terra, e utilizados mais para frente. Deixo para que tentem tirar suas próprias conclusões.
“Durante minha busca à fonte mãe, conheci uma enorme ilha,/Muito distante de nossas cálidas margens, com seu formato rochoso e acizentado, envolta em fios./Mas algo me chamava atenção, a juventude que ali habitava, não se via fixa aos fragmentos pretos que conheci./Ela era rica de saúde e imaginação, como se o ar que respiram e as vozes que ecoam em suas moradas já fossem o suficiente para lhes trazer conforto mental./Suas atividades recreativas eram diversas, de certa forma ainda me lembravam os nossos velhos hábitos da margem./Em paralelo, ainda poderia se perceber como as jardas nunca serão o suficiente para afastar de nós o que temos de comum, mesmo ali, com sua convivência limitada a seus intransponíveis muros, à vontade do esquecimento, ainda tragavam em respeito unilateral suas dores./Mesmo com seus rostos azulados e tradições mundanas, ainda sinto que estavam mais próximos de sua luz do que eu um dia já estive./Tão forte quanto a presença do despertar é o silêncio do desencarne./Seja creia e faça, Pois Nós seremos a Nova Nação.”
NTS: Você gravou todo o projeto no celular mais uma vez, mas agora parece que isso deixou de ser apenas um método e virou parte da estética do álbum. O que essa escolha diz sobre a forma como você enxerga a criação artística hoje?
CO: Minha relação em gravar com o celular não é, ou foi, algo super premeditado. É a forma que aprendi a fazer, porque gosto de imprimir meus efeitos de voz e texturas gerais. Eu produzia alguns instrumentais e não tinha ninguém pra rimar neles, então eu rimava e me gravava. Depois de um tempo, comecei a ter acessos a estúdios, mas até hoje não encontrei nenhum produtor que consiga traduzir ou entender meu workflow de vozes. Ao invés de ficar explicando e tentando traduzir as milimetragens do som que quero, acho mais fácil e natural, pegar e fazer.
Sou autodidata nesse quesito, gravei algumas faixas de Garoto Oceano e Nova Nação em questão de quinze a vinte minutos.
Coisa que eu nunca faria com mais alguém, produtor ou Mc me observando. Sou envergonhado, não gosto de gravar com muita gente ou pessoas que não tenho tanta intimidade, gosto de estar sozinho no meu quarto ou no carro. A única pessoa que me sinto confortável de gravar ao entorno é um amigo meu de infância.

NTS: O drum and bass traz uma energia muito diferente do boombap. O que essa mudança de sonoridade permitiu que você dissesse ou até sentisse que talvez não fosse possível nos seus trabalhos anteriores?
CO: Eu me encontro no meu momento mais agitado mentalmente. Para o projeto sair, ocorreram conflitos, muitos deles, e eu já estava em uma fase de agitação. Não estava me encontrando mais no mundo que criei em “Garoto Oceano”. Nessa narrativa, não deixei de “entregar minhas barras”, inclusive acho que é um EP liricamente recheado de boas frases. O foco principal é entender toda discórdia e raiva passada em vocais, é algo subliminar. Algo que senti, algo que sinto até hoje.
Precisava de agitação e de movimento, algo que eu pudesse traduzir em palcos, dar dinâmica aos shows. Mas foi recebido pela forma que eu já sabia que iria ser; quem estava de paraquedas ou só pelo boombap, apresentou resistência. Quem curte consumir a musicalidade e tem alguma visão própria, já pré estabelecida, que está aberto a descobrir musicalmente, vai achar estranho na primeira, e talvez com o tempo descubra uma nova abordagem para o EP.

NTS: Em vários momentos do álbum aparecem temas como tecnologia, excesso de informação, liberdade e vigilância. Você sente que a juventude vive uma contradição entre estar cada vez mais conectada e, ao mesmo tempo, mais distante de si mesma?
CO: Com certeza. A super vigilância tecnológica matou a espontaneidade. Não somente eu defendo essa tese, existem pesquisadores, sociólogos e cientistas de todos os modos que também discutem isso em larga escala.
Tudo que você faz, seja em festas, shows, na rua, ou em casa é gravado e postado. Viramos câmeras ambulantes — nós somos o sistema de vigilância.
Celulares e aparelhos tecnológicos que, por algum acaso místico, evoluem com nossa cultura de tal forma que não podemos mais viver sem. 24h por dia ao nosso lado, com câmeras de última tecnologia, gravadores de áudio que captam a mínima onda sonora que se reproduz ao seu redor, um sistema de GPS que te marca no globo com a precisão de uma agulha.
Levando para uma escala um pouco mais profunda, somos bombardeados com termos e contratos que sem ao menos lermos, já aceitamos, assim fornecendo todos nossos dados e atividades para big techs.
Pode parecer algo bobo, mas a partir do momento em que você vende seus costumes e rotina, uma empresa pega isso e traduz em consumismo, ADS, desejos, bombardeia sua tela, te posiciona em um “cercado virtual” aonde você é levado e retirado ao interesse deles, acabou. Como vai saber o que é você, o que não é, o que foi implementado em seu subconsciente como uma vontade ou um desejo? Muitos de nós vamos a festas e não dançamos, ou ficamos agindo de forma quadrada, com um medo sútil de sermos ridicularizados.
“Ah mas isso sempre existiu, não é algo de agora.” Sim. A diferença é que agora essa ridicularização tem um poder que antes não tinha: a eternidade virtual.

NTS: Você assina ou participa de praticamente todas as etapas dos seus projetos, da música ao audiovisual e à direção criativa. Em que momento esse controle deixa de ser uma necessidade e passa a ser uma linguagem?
CO: Essa vontade não vem de uma “necessidade” e sim de ser o que é. O por que de eu ser tão apegado à produção no celular ou o por que de estar em todas as áreas do meu projeto, talvez tenham a mesma resposta.
Porque faço assim. Desde o começo era eu, meu celular e uma batida. Simples.
Sempre gostei de fazer vídeos, sempre saí para a rua para gravar as coisas: desde um vídeo bobo de vivência com os amigos ou algo mais “conceitual”, como espécies de formigas que encontrava no mato.
Temos que entender que meu “último passo” foi cantar. Eu já vinha dessa base de edições de vídeo e instrumentos. Aprendi sozinho por curiosidade, tentativa e acerto. O mundo que vejo é o que imprimo em meus projetos, sei que posso sempre trazer a eles uma estética em minhas lentes por cima. É o que eu e quero fazer, porque é o que eu gosto de fazer, porque me faz sentir vivo.
NTS: Há referências que vão de Legião Urbana e O Rappa a Linkin Park e Incubus, mas tudo soa bastante autoral. Como você faz para transformar referências tão distintas em uma identidade que ainda seja reconhecida como "Caio Ocean"?
CO: Sou um garoto dos anos 2000. todos nós crescemos ouvindo rádio ou CDs. Sempre tive essa forte influência, sejam em questões instrumentais ou alguns vocais. Acho que sempre trago em minhas letras a sensação.
Posso na escrever o mesmo que eles, linha por linha. Mas de alguma forma consigo imprimir isso, quem é de pegar, pega. E é isso, faço música pra mim, como também faço pra essas pessoas que estão na mesma frequência.

NTS: Se Garoto Oceano apresentava quem era o Caio naquele momento, o que Nova Nação revela sobre a pessoa e o artista que você se tornou? Há algo que você acredita que o público ainda não conhece sobre você e que esse álbum finalmente expõe?
CO: Olha, eu mudo de fases constantemente, desde pequeno. Sempre curti tentar coisas novas. O caminho é maravilhoso, a falha é natural e revigorante. Em G•O, me vi esperançoso, com oportunidades novas e antigos medos. Produzi ao lado de amigos que gosto muito. Era uma energia feliz e mais leve. Ainda tinha uma fagulha de amor e do Caio que eu era, mais quieto e tímido, falava pouco, somente o necessário. Ainda acreditava em algumas coisas que me prometiam, pelo menos queria. Cantei, mostrei o tanto sou fraco, e a forma em que me via se desfez. Mudei.
Ainda tendo entender se foi pra melhor ou pior. Tentei me apegar a isso, pois quando ganhamos reconhecimento ou validação em alguma fase, tendemos a tentar ficar estabilizados na mesma. Mas não gosto disso…
Em N•N, eu já não me encontro. Tive que assumir tantos lados e tentar entender tantas frentes que me perdi. Muita e muita coisa no meio do processo. Quando coloco a cabeça no travesseiro, sei que não tive tempo para aproveitar algumas partes que poderiam ter sido mais legais, pois tinha que já acordar me preparando para lidar com problemas. E tá tudo bem. É, foi e vai ser apenas uma fase de transição, sei disso. Talvez uma fase necessária, talvez sem ela as coisas não andem. N•N é um expurgo, assim como G•O, só que em duas frequências diferentes.
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