Direção, território e a recusa dos esteriótipos por Paulo Nascimento
Nascido em São Mateus, Zona Leste de São Paulo, Paulo construiu sua trajetória no audiovisual fora dos caminhos tradicionais de formação e legitimação. Sua direção nasce da vivência direta, da necessidade e da observação do mundo real, sem se prender a estereótipos que historicamente moldaram o imaginário sobre corpos e territórios periféricos.
Nesta conversa, Paulo fala sobre os primeiros contatos com a câmera, o impacto social do audiovisual, o atravessamento da igreja e dos Fábricas de Cultura, a relação entre cinema autoral e publicidade, e a responsabilidade de disputar narrativas em um mercado ainda marcado por olhares viciados. Um retrato direto de um diretor que entende imagem como linguagem, cuidado e construção de futuro.
Confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: Para começar, quem é Paulo Nascimento? Paulo Nascimento: Sou Paulo Nascimento, tenho 28 anos, nascido em São Mateus, Zona Leste de São Paulo. Sou diretor. Minha visão nasce da quebrada, mas não fica presa nela.
NTS: Em qual momento da sua vida surgiu o interesse por fotografia e o mundo do audiovisual? PN: Começou na igreja e nos Fábricas de Cultura. Eu tinha 14 anos quando peguei a câmera pela primeira vez para fotografar ações sociais e fazer mini curtas. Gravei um filme em um asilo com a câmera da igreja e, quando mostrei para minha mãe, ela chorou. Foi ali que entendi o impacto do audiovisual.

NTS: Trabalhar com filmes é algo que precisa de especialização. Quando você reparou que tinha aptidão?
PN: A especialização é importante, mas nem sempre é acessível. No meu caso, a necessidade me formou. Eu ganhava 450 reais fazendo retrospectivas de aniversário infantil para pagar aluguel e ainda pedia cesta básica na igreja. Não tinha estudo técnico, só vontade. E algumas pessoas acreditaram em mim no momento certo.
NTS: Qual é o seu processo criativo ao desenvolver um filme para uma marca ou campanha publicitária?
PN: Escolho bem os trabalhos e me cerco de pessoas talentosas e de coração bom. Entendo o que a marca precisa, mas mantenho meu olhar. Busco algo humano e visualmente forte. Não gosto de reforçar estereótipos, prefiro trazer a verdade.
NTS: Como São Mateus e Santo André moldam sua visão de cinema?
PN: São Mateus me moldou. Me fez pensar diferente, me deu acesso à cultura muito cedo. Sempre vi beleza ali e faço questão de mostrar isso. Coloquei o bairro em um filme da Lapo, com o monotrilho ao fundo. Já Santo André me apresentou outra cena criativa, mais consolidada, que me puxou para cima. Levo desses dois lugares a sensibilidade, a vivência e a noção de mundo real.

NTS: Você fala sobre não reforçar o imaginário de dor sobre pessoas periféricas. O que te fez ter essa postura?
PN: Por muito tempo, diretores brancos filmaram pessoas negras sempre pela lente da violência. Isso não representa quem somos. Eu sempre quis trazer alívio, liberdade e dignidade para o povo negro. Somos mais do que pobreza e tragédia. Quero cuidar do imaginário sobre nós.
NTS: Como você enxerga esse ciclo e por que ele ainda é tão premiado no mercado?
PN: Porque é um olhar viciado, o mercado premia a mesma narrativa há anos. É mais fácil reforçar o que já existe do que abrir espaço para novas perspectivas. Ainda sou, muitas vezes, o único diretor negro na disputa dos festivais, isso diz muito sobre quem tem espaço para contar histórias.

NTS: Qual foi seu primeiro projeto que destravou barreiras e apresentou quem é Paulo Nascimento?
PN: Meu primeiro filme com a Class, “Operários”. A Rafa e o Eric confiaram em mim e no Henrique, e eu dei tudo de mim. Depois veio o filme da Sufgang, que foi um divisor de águas, “O mundo é nosso”. Esse filme abriu portas, me levou para a Alemanha e marcou minha primeira viagem internacional. Cumpri uma promessa para mim mesmo e conheci Barcelona e Paris pela primeira vez.

NTS: Como você equilibra projetos autorais e filmes publicitários sem perder sua assinatura estética?
PN: Escolhendo bem o que faço e trabalhando com pessoas que entendem minha visão. Não aceito tudo. Eu sei o que quero construir, e deixo o talento seguir o caminho dele. Quando isso acontece, a assinatura aparece naturalmente.
NTS: Após os prêmios deste ano, como lida com a pressão de corresponder e continuar evoluindo?
PN: Com calma. Fico feliz pelos prêmios, mas não deixo isso me paralisar. Continuo estudando, observando e me cercando das pessoas certas. A pressão existe, mas eu tento não me perder dela. O foco é continuar melhorando.

NTS: Quais referências te acompanham hoje?
PN: Entre os diretores: Gabriel Moses, Tarkovski, Alfonso Cuarón e Spike Lee. Na música: Milton Nascimento, Aphex Twin, Racionais MC’s e Rico Dalasam. Nos filmes: “La Haine”, “Cidade de Deus” e “Filhos da Esperança”. Na fotografia: Alex Webb, Gordon Parks, Danilo Arenas, Walter Firmo e Davide Sorrenti.
NTS: O que Paulo Nascimento ainda quer filmar?
PN: Quero filmar a cena de cultura e moda do Brasil. Tem muita gente talentosa fazendo coisas importantes. Me inspiro em “Kids” e “Athena”. Quero fazer um filme sobre essa geração, com as pessoas reais desse movimento.
NTS: Se tivesse que dar uma dica para alguém, qual seria?
PN: Siga seu coração. O caminho é difícil, e se você for negro e de favela, vai precisar ter autoestima, cabeça forte e trabalhar três vezes mais. Não pule etapas, seja curioso. Saiba chegar e saiba sair, e tenha fé.
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