Direção, território e a recusa dos esteriótipos por Paulo Nascimento

12 de jan. de 2026


Nascido em São Mateus, Zona Leste de São Paulo, Paulo construiu sua trajetória no audiovisual fora dos caminhos tradicionais de formação e legitimação. Sua direção nasce da vivência direta, da necessidade e da observação do mundo real, sem se prender a estereótipos que historicamente moldaram o imaginário sobre corpos e territórios periféricos.

Nesta conversa, Paulo fala sobre os primeiros contatos com a câmera, o impacto social do audiovisual, o atravessamento da igreja e dos Fábricas de Cultura, a relação entre cinema autoral e publicidade, e a responsabilidade de disputar narrativas em um mercado ainda marcado por olhares viciados. Um retrato direto de um diretor que entende imagem como linguagem, cuidado e construção de futuro.

Confira a entrevista completa abaixo:

NOTTHESAMO: Para começar, quem é Paulo Nascimento? Paulo Nascimento: Sou Paulo Nascimento, tenho 28 anos, nascido em São Mateus, Zona Leste de São Paulo. Sou diretor. Minha visão nasce da quebrada, mas não fica presa nela.

NTS: Em qual momento da sua vida surgiu o interesse por fotografia e o mundo do audiovisual? PN: Começou na igreja e nos Fábricas de Cultura. Eu tinha 14 anos quando peguei a câmera pela primeira vez para fotografar ações sociais e fazer mini curtas. Gravei um filme em um asilo com a câmera da igreja e, quando mostrei para minha mãe, ela chorou. Foi ali que entendi o impacto do audiovisual.

NTS: Trabalhar com filmes é algo que precisa de especialização. Quando você reparou que tinha aptidão?
PN: A especialização é importante, mas nem sempre é acessível. No meu caso, a necessidade me formou. Eu ganhava 450 reais fazendo retrospectivas de aniversário infantil para pagar aluguel e ainda pedia cesta básica na igreja. Não tinha estudo técnico, só vontade. E algumas pessoas acreditaram em mim no momento certo.

NTS: Qual é o seu processo criativo ao desenvolver um filme para uma marca ou campanha publicitária?
PN: Escolho bem os trabalhos e me cerco de pessoas talentosas e de coração bom. Entendo o que a marca precisa, mas mantenho meu olhar. Busco algo humano e visualmente forte. Não gosto de reforçar estereótipos, prefiro trazer a verdade.

NTS: Como São Mateus e Santo André moldam sua visão de cinema?
PN: São Mateus me moldou. Me fez pensar diferente, me deu acesso à cultura muito cedo. Sempre vi beleza ali e faço questão de mostrar isso. Coloquei o bairro em um filme da Lapo, com o monotrilho ao fundo. Já Santo André me apresentou outra cena criativa, mais consolidada, que me puxou para cima. Levo desses dois lugares a sensibilidade, a vivência e a noção de mundo real.

NTS: Você fala sobre não reforçar o imaginário de dor sobre pessoas periféricas. O que te fez ter essa postura?
PN: Por muito tempo, diretores brancos filmaram pessoas negras sempre pela lente da violência. Isso não representa quem somos. Eu sempre quis trazer alívio, liberdade e dignidade para o povo negro. Somos mais do que pobreza e tragédia. Quero cuidar do imaginário sobre nós.

NTS: Como você enxerga esse ciclo e por que ele ainda é tão premiado no mercado?
PN: Porque é um olhar viciado, o mercado premia a mesma narrativa há anos. É mais fácil reforçar o que já existe do que abrir espaço para novas perspectivas. Ainda sou, muitas vezes, o único diretor negro na disputa dos festivais, isso diz muito sobre quem tem espaço para contar histórias.

NTS: Qual foi seu primeiro projeto que destravou barreiras e apresentou quem é Paulo Nascimento?
PN: Meu primeiro filme com a Class, “Operários”. A Rafa e o Eric confiaram em mim e no Henrique, e eu dei tudo de mim. Depois veio o filme da Sufgang, que foi um divisor de águas, “O mundo é nosso”. Esse filme abriu portas, me levou para a Alemanha e marcou minha primeira viagem internacional. Cumpri uma promessa para mim mesmo e conheci Barcelona e Paris pela primeira vez.

NTS: Como você equilibra projetos autorais e filmes publicitários sem perder sua assinatura estética?
PN: Escolhendo bem o que faço e trabalhando com pessoas que entendem minha visão. Não aceito tudo. Eu sei o que quero construir, e deixo o talento seguir o caminho dele. Quando isso acontece, a assinatura aparece naturalmente.

NTS: Após os prêmios deste ano, como lida com a pressão de corresponder e continuar evoluindo?
PN: Com calma. Fico feliz pelos prêmios, mas não deixo isso me paralisar. Continuo estudando, observando e me cercando das pessoas certas. A pressão existe, mas eu tento não me perder dela. O foco é continuar melhorando.

NTS: Quais referências te acompanham hoje?
PN: Entre os diretores: Gabriel Moses, Tarkovski, Alfonso Cuarón e Spike Lee. Na música: Milton Nascimento, Aphex Twin, Racionais MC’s e Rico Dalasam. Nos filmes: “La Haine”, “Cidade de Deus” e “Filhos da Esperança”. Na fotografia: Alex Webb, Gordon Parks, Danilo Arenas, Walter Firmo e Davide Sorrenti.

NTS: O que Paulo Nascimento ainda quer filmar?
PN: Quero filmar a cena de cultura e moda do Brasil. Tem muita gente talentosa fazendo coisas importantes. Me inspiro em “Kids” e “Athena”. Quero fazer um filme sobre essa geração, com as pessoas reais desse movimento.

NTS: Se tivesse que dar uma dica para alguém, qual seria?
PN: Siga seu coração. O caminho é difícil, e se você for negro e de favela, vai precisar ter autoestima, cabeça forte e trabalhar três vezes mais. Não pule etapas, seja curioso. Saiba chegar e saiba sair, e tenha fé.