Muse Maya e o universo visual em seu novo álbum “PERSONA”
Deixando de lado as expectativas do público para abraçar sua verdadeira identidade, a cantora e compositora Muse Maya lança o álbum “PERSONA”. Com 15 faixas gravadas após nove anos de caminhada, o trabalho funciona como um processo de libertação e cura para a artista. O projeto deixa de lado o silêncio para colocar no centro da narrativa temas como dinheiro, desejo, sexo e ascensão social, transformando as feridas do passado.
A sonoridade do disco mistura trap, pop e R&B de forma muito natural, contando com o produtor Nagalli direção musical. Juntos, eles organizaram um mapa de faixas que une músicas criadas por Muse Maya em casa com produções de outros beatmakers, criando uma identidade única para o álbum. Nas letras, a artista contou e expôs sentimentos como raiva, orgulho e ego.
O universo visual de “PERSONA” foi desenhado pela própria cantora e traz forte influência da arquitetura brutalista, com o uso de tons cinzas, concreto e linhas duras em contraste com o minimalismo. Inspirado pelo livro “Antifrágil” e por referências que vão de poemas românticos a Fela Kuti, batemos um papo com Muse Maya para entender a construção desse novo álbum e as reflexões que moldaram o projeto. Confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: PERSONA nasce, segundo você, quando você para de tentar caber nas versões que esperavam de você. Quais eram essas versões da Muse Maya e o que você precisou abandonar para chegar à artista que aparece neste disco?
Muse Maya: Eu abandonei o medo de não ser aceita por ser quem eu sou, sentir como eu sinto e falar isso de forma escancarada. Abandonei a versão que gostaria de agradar, de ser amada, de ser compreendida, e pra falar a verdade como mulher preta nunca soube muito bem o que
esperavam de mim a não ser o silêncio e o fracasso. Quando comecei esse projeto, eu tava muito cansada de tentar ser tudo que eu achava que precisava ser para ser vista, compreendida, porque no fim somos artistas e vivemos pra expor quem somos e como vemos o mundo.
E quando eu abandonei isso, foi quase como se tivesse tirado o mundo que talvez eu mesma deixei colocarem nas minhas costas. Ser mulher na cena independente e sobrevivendo por nove anos, pode ter certeza que eu ouvi e vivi muita coisa que nem palavras consigo encontrar, mas esse álbum curou feridas profundas em mim e acho que é primeira vez que eu fiz um álbum sem dor, com feridas sendo curadas, não mais abertas.

NTS: O álbum coloca força e vulnerabilidade lado a lado, sem tratar uma como oposta à outra. Hoje, você entende que assumir suas fragilidades também pode ser uma demonstração de força? Como isso aparece nas músicas?
MM: Acho que para ser frágil e deixar isso ser visto pelo outro já é por si só um ato de coragem que todo artista precisa lidar. Isso sempre esteve inerente nas minhas letras, mas o que muda nessa perspectiva é quais fragilidades eu deixava serem vistas e quais eu escolhi esconder. Nesse álbum, pra mim, deixo todas elas transbordarem. Mas não num lugar de melancolia. Nem sempre ir à fundo nas vulnerabilidades precisa significar fraqueza/tristeza, e principalmente nos momentos onde estou sendo mais agressiva, são pra mim os momentos de maior vulnerabilidade.
E foi aonde eu queria chegar com as músicas: num lugar onde eu exponho sem medo as minhas sombras; onde tem sim coisas tristes, mas também tem raiva, ego, orgulho. Sinto que durante o álbum eu mostro minhas cicatrizes como uma marca de uma guerra da qual eu me orgulho, sem pesar e até com um toque de sarcasmo.
NTS: Você fala abertamente sobre dinheiro, desejo, sexo, ambição e ascensão social. Quando uma mulher coloca essas vontades no centro da própria narrativa, ainda existe um julgamento diferente daquele direcionado aos homens dentro do rap e do trap?
MM: Existe, e muito. Até de mim para mim mesma, existia esse julgamento e esse foi o ponto onde eu me libertei. Por mais que sempre toquei nesses temas, nunca tornei eles centrais num trabalho como esse, talvez por influência dessa construção social do meu papel como artista e mulher no mundo, que na verdade é uma grande invenção para nos manter sob controle. Nós mulheres artistas temos o poder de ver para além do físico. Nada é fútil ou superficial quando vem de nós e temos em nós algo que transforma o desejar, seja dinheiro, sexo, ascensão social. E por isso somos podadas desde novas. Um dia eu também acreditei tanto nisso que me podei e me deixei ser podada. Nesse álbum rompo com esse ciclo para comigo mesma.

NTS: PERSONA mistura trap, pop e R&B e tem Nagalli na direção musical, além de diferentes produtores ao longo das 15 faixas. Como vocês construíram uma unidade sonora para o disco sem limitar as diferentes “personas” que aparecem nele?
MM: Acredito que o ponto na verdade foi tornar todos esses elementos que compõem o álbum em uma única Persona que é a que eu apresento durante o disco. Sinceramente, essa unidade veio muito natural com o trabalho. Eu escrevi várias músicas em casa sozinha, lapidando durante meses, e algumas até antes de saber que iria virar um álbum.
Mas eu entrei tanto nesse lugar, que eu e o Nagalli havíamos conversado sobre o que poderia ser feito e em como a gente enxergava esse lugar musical que eu poderia encontrar que quase tudo que eu fiz durante esses dois anos encaixava. Tanto que algumas das faixas com outros produtores, de primeira, nem estariam no álbum. Ele escolheu a ordem de faixas e quais entrariam (e quase todas que eu queria entraram). Ele fez um mapa mesmo, de como ele via esse corpo do disco e o que faltava e eu apenas confiei e me aprofundei em estudar e lapidar pra entregar exatamente o que precisava. Aprendi muito também sobre mim e sobre construção de um álbum.
NTS: A estética foi pensada por você junto com a música, passando por direção criativa, looks, brutalismo e minimalismo. Em que momento você percebeu que não queria apenas cantar PERSONA, mas construir todo o universo visual que determina como esse álbum seria visto?
MM: Antes de ter o nome e as 15 faixas, eu já conseguia ver dentro da minha mente o que eu visualmente queria construir. Falando de arquitetura, o brutalismo é algo que eu sou fissurada. Amo o cinza, o concreto e as linhas duras que cortam o desenho. O minimalismo eu uso como um contra ponto visual para comigo mesma, pois esteticamente sou tudo menos minimalista, assim como a fragilidade é um contra ponto para a força. Tendo esses opostos também nas músicas e querendo que tudo isso virasse uma unidade, eu me vi quase que automaticamente sendo atraída para esse lugar imagético.
Um livro me inspirou muito nesse conceito que eu queria trazer pra imagem e pro geral: “Anti-frágil: Coisas que se beneficiam com o caos”. Um livro que fala como do caos nasce a verdadeira força e nada mais caótico do que dois anos criando e vivendo em São Paulo… Fora todo caos de anos na música. O caos que é organizar um lançamento como esse. E caos pode ser só um outro nome pra Exu que trabalha no movimento.
Tudo isso foram detalhes que construíram Persona e me curaram durante o processo. Ainda está curando, ainda está sendo criado e construído, porque eu vejo esse álbum como uma escada e, a cada degrau que eu apresento pra vocês, eu também acabei de criar. Eu sou uma artista que faz visuais desde a minha primeira música. Eu nunca lancei um trabalho sem a parte audiovisual — quando eu estou compondo eu vejo essas imagens e por isso um não existe sem o outro.
NTS: Entre as 15 faixas, existe alguma que foi especialmente difícil de escrever ou lançar por revelar uma versão sua que você normalmente protegeria do público?
MM: Tem duas músicas. Uma foi difícil de escrever e outra de lançar. “Hater” eu devo ter feito no mínimo umas oito versões em casa. Fiquei com muito receio de mostrar pro mundo… Até cheguei soltar uma prévia e apaguei com receio de me expor demais. Estou sendo tudo que sempre neguei ser à mim mesma.
Eu cresci ouvindo Jazz e minhas referências musicais são clássicas e cheias de letras profundas. Sou muito fã de poetas românticos, como Olavo Bilac, então nunca me imaginei fazendo músicas que pra alguns poderiam beirar à futilidade. São músicas onde, por mais que não transpareça, é muito difícil me expressar, onde estou completamente fora da zona de conforto. Em “Hater”, por exemplo, nem autotune eu usei. Ao mesmo tempo eu me diverti como nunca, gargalhava de mim mesma enquanto escrevia e é libertador tirar esses sentimentos de dentro e expor eles sem medo dos olhos alheios.
No fim entendi que eu só tive dificuldade de falar coisas que eu já senti sim, e que eu não preciso ser polida. Não preciso continuar presa às amarras que eu mesma deixei me prender, e sinceramente? É muito bom falar com essa coragem tudo que eu sou, até o que provavelmente você não vai gostar.

NTS: Fela Kuti aparece como referência direta no álbum e ganha até um interlúdio. O que você encontra na obra e na postura dele que conversa com PERSONA e com a artista que você quer construir daqui para frente?
MM: Eu cresci ouvindo Fela Kuti, mas só na vida adulta que fui entender quem ele era. Assim que cheguei em São Paulo eu vi o documentário dele e naquele momento algo mudou dentro da minha mente. Tem uma frase que ele diz que não devemos brincar com a música, pois música é uma coisa espiritual e quem brinca com ela morre jovem.
Essa frase e o documentário como um todo me mostrou um lado que eu tinha esquecido sobre o que significava escolher viver como artista e fazer dessa minha profissão, minha vida. Foi quando eu mandei a primeira mensagem pro Nagalli, e dali pra frente mesmo sem saber que viraria um álbum virou. Quando fomos pra parte de pensar um interlúdio, ele foi o primeiro que veio na minha mente, essa frase, e foi daí que surgiu a homenagem. Tudo isso pra mim é uma sabedoria preta ancestral que nos pertence, e, daqui pra frente, espero ser uma artista que saiba usar dessa ancestralidade para criar.
NTS: Você volta ao Palco Supernova do Rock in Rio quatro anos depois da sua primeira apresentação por lá, agora estreando PERSONA ao vivo e vivendo outro momento da carreira. Se a Muse Maya de 2022 pudesse assistir a esse show de 2026, o que você acha que mais surpreenderia ela?
MM: Acho que ela sentiria muito alívio, que ficaria em choque com as letras desse álbum e com certeza iria chorar ao ver que tá dando certo. Que ela errou muito na vez dela mas que na minha eu tive coragem de ir sozinha, de pegar a responsabilidade pra mim e vingar de certa forma o que ela não conseguiu entregar, seja por falta de um álbum que ela queria muito ter soltado ou pelas pessoas que estavam com ela na época.
Ver que eu finalmente achei amigos, produtores, artistas que realmente amam e valorizam quem a Muse Maya de hoje é. Ela também ia ficar em choque do quanto eu vou me divertir lá em cima e nada vai me preocupar, nada.




