Noiadance, o ritmo do norte brasileiro

7 de jan. de 2026

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O ritmo surge em Porto Velho, capital de Rondônia, longe dos grandes centros de legitimação da música brasileira. Seu nascimento não está ligado a um projeto estético formal, a uma cultura organizada nos moldes tradicionais ou a uma intenção de inserção no mercado nacional. Ele aparece como resultado direto da circulação informal de música eletrônica global em territórios periféricos da Amazônia urbana, especialmente nas zonas Leste e Sul da cidade, onde festas de bairro, eventos comunitários, carros de som e encontros improvisados funcionavam como espaços primários de experimentação sonora.

No início da década de 2010, produtores locais passaram a manipular referências que chegavam por meio da internet, pendrives, CDs gravados e arquivos compartilhados. O Dutch house, vertente da música eletrônica europeia que havia ganhado força entre 2009 e 2011, torna-se uma base rítmica importante, principalmente por sua estrutura repetitiva, seus drops diretos e sua capacidade de sustentar longos períodos de dança. Essa matriz, no entanto, não é reproduzida de forma fiel. Ela é misturada a batidas de funk, elementos do moombahton e outros elementos já faziam parte do cotidiano musical da cidade.

O termo noiadance surge de maneira orgânica, sem autoria definida, como uma forma popular de nomear um som que parecia excessivo, intenso, repetitivo e hipnótico. Em paralelo, muitos produtores e DJs também utilizavam o nome "leskerray” para se referir ao mesmo conjunto de batidas, o que indica que, desde o início, o gênero não se organiza a partir de uma identidade fixa, mas de uma prática coletiva em constante ajuste. O som chegou primeiro no coração dos moradores da Zona Leste e Sul de Porto Velho. Marginalizado por vários anos, a vertente de música eletrônica era uma das principais características das festas dessas regiões.

Musicalmente, o noiadance se caracteriza por BPM elevado, linhas de grave marcadas, uso recorrente de synths agressivos e estruturas pensadas para impacto imediato. Mas muito além de qualquer teoria técnica, a ideia é criar novas versões de hits já conhecidos, uma nova visualização única e exclusiva do espaço em que é criada.

A prática do remix é central para o desenvolvimento do noiadance. Em vez de composições totalmente originais, muitos produtores optam por reconfigurar músicas já conhecidas, nacionais ou internacionais, inserindo a batida do gênero e alterando completamente a função da faixa. Esse procedimento cria um reconhecimento imediato, ao mesmo tempo em que desloca o sentido original da música. Hits românticos, faixas pop ou funks ganham outra camada de uso.

O canal mais famoso e que movimenta a cultura é nomeado de "Canal Remix", e conta com os DJs e produtores Yuri Lorenzo, Lucas Ferraz, Tortinho PVH, Kelvin Douglas, Erikson Vieira, Diogo Pacciny, Thiago Rodrigues e o administrador Carlos Eduardo.

Durante anos, o Noiadance permaneceu restrito ao circuito local. Não há cobertura midiática, não há interesse da indústria e não há preocupação em adaptar o som para padrões externos. Essa condição de invisibilidade contribui para o fortalecimento de uma identidade própria, pouco mediada por expectativas externas.

Parte virada acontece quando o gênero encontra as plataformas digitais em um momento específico de maturação. O TikTok, em especial, funciona como catalisador. A lógica da plataforma, baseada em repetição, desafio, coreografia e circulação rápida de trechos sonoros, se encaixou perfeitamente na estrutura do Noiadance. A música deixa de depender de eventos físicos para circular e passa a ocupar feeds, vídeos curtos e trends.

A faixa Santinha, associada ao produtor Felipe Morais, se tornou um ponto de inflexão. O som extrapola Porto Velho, entra em rankings virais do Spotify no Brasil e em Portugal e passa a ser reproduzido em milhares de vídeos.

Com a viralização, o Noiadance passa a ser ouvido fora de seu território original, muitas vezes desconectado do contexto que o produziu.

Esse processo levanta tensões importantes. De um lado, há o reconhecimento e a ampliação de alcance. De outro, há o risco de apagamento da origem periférica e amazônica do Noiadance, transformando-o apenas em mais um recurso estético dentro do mercado global de música eletrônica. A história do gênero passa a disputar espaço entre quem o viveu localmente e quem o consome de forma descontextualizada.

Culturalmente, o Noiadance é um exemplo recente de como territórios historicamente marginalizados produzem linguagens próprias a partir do contato com fluxos globais. Ele não é uma cópia da música eletrônica europeia nem uma simples variação do funk. É uma reorganização local de referências externas, filtradas por condições materiais específicas, formas de sociabilidade periférica e usos coletivos da música.