O ano era 2016 e essa era a trilha sonora

5 de jan. de 2026

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Como singles, álbuns e cenas específicas organizaram o rap, o pop e a lógica da música global naquele momento.

O ano de 2016 não se impôs como um marco por acaso. O desenvolvimento musical naquele ano surge num ponto específico de reorganização da indústria musical, quando o streaming deixa de ser uma promessa e se torna o ponto central de distribuição, consumo e validação cultural de artistas, labels, produtoras e fãs, junto a um momento onde as redes sociais se estabeleciam como a teia de aranha de toda a comunicação global. Spotify, Apple Music e SoundCloud eram os lugares onde a música existia de fato, cresciam, se estabeleciam nos quatro cantos e projetavam o que era consumo médio, porém, esse deslocamento, de modelos mais próximos ao analógico para o digital mudaram tudo, encurtando o tempo de vida das músicas, os singles passaram a serem preferidos do que os álbuns, playlists substituem rádios e charts tradicionais começam a responder diretamente ao comportamento de usuários em tempo real. É dentro dessa engrenagem que 2016 se constrói.

Quando Drake lança Views, em abril de 2016, ele já não é apenas um artista em ascensão, e sim o principal nome da música pop global, ocupando simultaneamente rap, R&B e o espaço híbrido que ele próprio ajudou a consolidar. Views nasce num momento em que Drake entende perfeitamente a lógica do streaming, com um álbum longo, diverso em climas, pensado para retenção e repetição. Ao mesmo tempo, o disco reforça uma leitura de Drake sobre outros estilos musicais, incorporando dancehall e afrobeats como expansão natural de um artista que já operava em escala global.

The Life of Pablo, lançado por Kanye West em fevereiro de 2016, funciona como um retrato cru da própria instabilidade do artista naquele momento e, ao mesmo tempo, como um experimento radical sobre o que um álbum poderia ser na era do streaming. Diferente de lançamentos fechados e definitivos, Kanye trata o disco como um organismo mutável, alterando mixes, faixas e estruturas após o lançamento, algo inédito em escala mainstream até então. Musicalmente, TLOP é fragmentado em sua consistência, experimenta gospel, trap, soul, eletrônica e samples sem buscar coesão clássica. Essa escolha não é aleatória, reflete um artista em conflito público com fama, religião, família e saúde mental. Faixas como Ultralight Beam, Father Stretch My Hands e Famous não constroem uma narrativa linear, mas sim blocos de tensão que dialogam diretamente com a lógica caótica da internet, das timelines e da superexposição.

Já ANTI, de Rihanna, lançado em janeiro de 2016, representa uma ruptura consciente com a lógica pop que a própria artista ajudou a sustentar durante a década anterior. Após anos operando com hits planejados para rádio e charts, Rihanna entrega um álbum menos preocupado com desempenho imediato.

Nesse mesmo ecossistema, Young Thug segue exercendo influência profunda, ainda que nem sempre mensurável em números diretos. Pick Up the Phone, lançada inicialmente como colaboração com Travis Scott e depois incorporada à narrativa do Migos com Quavo, é resultado de um circuito criativo específico do sul dos Estados Unidos. Atlanta e Houston criavam em diálogo constante, compartilhando produtores, estéticas e artistas. A música marcou um modelo de realizar colaborações, a produção audiovisual e os sons produzidos à época, abrindo portas ao prospecto Travis Scott.

Em paralelo, 2016 também abriu espaço para abordagens de novos rappers e produtores. Broccoli, apresentava ao mundo Lil Yachty, com participação de D.R.A.M, música que apresentava de forma quase oposta ao tom mais sombrio de parte do trap. A faixa aposta em uma simplicidade estrutural, refrão repetível e estética associada à internet, à animação.

Todo esse cenário fica evidente no XXL Freshman Cypher de 2016. A seleção reúne Lil Uzi Vert, 21 Savage, Kodak Black, Lil Yachty e Denzel Curry, nomes que marcaram uma das melhores classes que se apresentaram para a revista, com trajetórias, estéticas e origens distintas, mas conectadas neste período. Aquela edição cria a nova geração e registra um momento singular em que o rap passava.

Fora dos Estados Unidos, 2016 também marca reposicionamentos importantes. No Reino Unido, Skepta lança Konnichiwa, um disco de grime capaz de furar a barreira internacional que havia para o rap britânico. O álbum surge após anos de marginalização do gênero dentro da própria indústria britânica e Skepta opta por manter referências locais, sotaque, temas urbanos e sua independência estrutural. O reconhecimento vem com o Mercury Prize e com a ampliação do diálogo entre as cenas britânicas e americanas. A partir dali, o Reino Unido passa a ser visto novamente como polo relevante de inovação musical.

No Brasil, 2016 também se mostra decisivo. Castelos e Ruínas, de BK, surge como um dos discos mais consistentes do rap nacional da década. O álbum articula vivência pessoal, memória urbana e ambição artística com produção cuidadosa e coesão estética. Seu impacto se manifesta ao longo do tempo, influenciando a forma como artistas brasileiros passam a pensar álbuns, identidade visual e narrativa.

Lançado em 2016, Boogie Naipe, de Mano Brown, também ocupa um lugar central nesse período de transição da música. Primeiro álbum solo do artista fora dos Racionais MC’s, o disco surge em um momento em que Brown se permite deslocar o próprio eixo criativo, explorando com mais liberdade o soul, o funk, o R&B e a música negra brasileira e norte-americana.

No campo do R&B e da música pop experimental, Frank Ocean lança Blonde após um dos movimentos mais calculados e tensos da indústria recente. O artista em um movimento contra a sua gravadora da época, lança o que seria o álbum decisivo da sua carreira de forma independente. O álbum rompe com estruturas tradicionais, tanto formais quanto comerciais, mesmo inserido no ambiente de streaming, o disco resiste à lógica do consumo rápido.

Outro fenômeno emblemático do ano é Black Beatles, de Rae Sremmurd. A música se torna inseparável do Mannequin Challenge, um movimento coletivo que transforma a canção em trilha de uma prática social. O sucesso não se dá apenas pelo áudio, mas pela replicação visual, pela performance coletiva e pela viralização orgânica, que se tornaria tradicional nas redes sociais.

Revisitar 2016 é uma forma de entender a base estrutural do presente. Muitos dos códigos atuais se consolidaram ali. Artistas entendem que lançar música envolve imagem, timing, circulação e leitura de plataforma. Cenas locais ganham projeção global sem mediação tradicional. A indústria reage a movimentos que já acontecem fora de seu controle direto.

Além disso, preparamos uma playlist especial em nosso Spotify para comemorar os 10 anos desses lançamentos: 2016 NTS PLAYLIST