A Jamaica brasileira: como o Maranhão adotou o reggae como identidade própria
No estado em que a divisa entre Norte e Nordeste é feita, existe um local onde o reggae faz parte de cada raiz fincada no solo. São Luís do Maranhão carrega, há décadas, o apelido de Jamaica brasileira, mas, como essa aproximação aconteceu? Como um estado presente em uma das regiões culturalmente mais ricas de nosso país, adotou para si um gênero jamaicano como sua expressão mais forte.
Relativamente novo, o reggae desembarcou em São Luís no fim dos anos 1970, e existem desde explicações técnicas, quanto figuradas e metafóricas para essa chegada. Em primeiro lugar, ondas de rádio da região central da América Latina acabavam chegando com mais facilidade nessa região de nosso país. Portanto, em vez de escutar a programação normal, que avançava aos poucos do restante do país, muitas pessoas preferiam a programação diária de músicas jamaicanas e da região caribenha. Nesse momento, além do descobrimento quase como obra do acaso, pescadores da região dividiam o mesmo mar que os marinheiros jamaicanos, que utilizavam de discos como moeda de troca por produtos e serviços na costa maranhense, principalmente na região do Porto do Itaqui.

Após essa primeira chegada, houve o desenvolvimento e crescimento dos bailes daquele som que todo mundo escutava, organizados fora dos circuitos oficiais de lazer, sendo exatamente nesse ambiente que as radiolas, réplicas quase idênticas dos sound systems jamaicanos, começaram a se popularizar em massa. Como resumiu bem Euclides Moreira Neto em "O poder simbólico das radiolas de reggae na cultura maranhense", o reggae é uma espécie de música soul com ritmos africanos, definição simples que explica por que a identificação foi tão imediata. São Luís já era, historicamente, uma das cidades brasileiras com maior concentração de população afrodescendente e de tradições de raiz africana vivas no cotidiano, caso do tambor de crioula e do bumba-boi.
O motor que sustentou essa relação por meio século foram as radiolas. Nomes como Estrela do Som, Super Itamaraty, Super Mega Itamaraty, Irie FM, Freedom FM, Império Musical, Brisa do Som, Águia de Jah e Dart Som se tornaram instituições dentro da cidade, cada uma disputando prestígio a partir de um único critério, quem tinha, no próprio acervo, os discos mais raros e mais desconhecidos do público.

Donos de radiola viajavam para fora do estado, e às vezes para fora do país, caçando vinis escondidos de reggae jamaicano dos anos 60 e 70 nunca lançados oficialmente no Brasil. Para proteger a exclusividade da faixa, era comum raspar o rótulo do disco antes de tocá-lo em público, apagando o nome do artista e da gravadoras, ritual que ficou conhecido como "melô".
Vale marcar um contraste que ajuda a entender a singularidade maranhense, o reggae também floresceu, na mesma época, em Salvador, mas por uma via completamente diferente. Na Bahia, a difusão veio muito atrelada a nomes já estabelecidos da música popular, como Gilberto Gil, que incorporou o reggae ao próprio repertório, e depois Edson Gomes, que construiu carreira solo dentro do gênero. Em São Luís, o processo foi inverso, de baixo pra cima, não foram artistas famosos que trouxeram o reggae às massas, foram as próprias massas, através de cada bairro.
Dessa base popular nasceram, com o tempo, artistas e bandas que projetaram o Maranhão para fora do estado, caso da Tribo de Jah, ativa desde os anos 1980, que levaria o reggae maranhense a todo o país.

Essa paixão é tão visceral que invadiu as arquibancadas, encontrando no Sampaio Corrêa a sua maior expressão de identidade. Conhecido carinhosamente como a “Bolívia Querida”, o time adotou as cores verde, amarelo e vermelho, as mesmas da bandeira pan-africana e do movimento rastafári, o que facilitou o encontro perfeito.

Em 2018, São Luís inaugurou, na Rua da Estrela, no centro histórico, o Museu do Reggae, o primeiro museu temático dedicado ao gênero fora da própria Jamaica, reunindo discos raros, radiolas históricas e a memória oral de décadas de baile. Em setembro de 2023, veio o reconhecimento máximo: a Lei federal 14.668 declarou São Luís Capital Nacional do Reggae, formalizando em documento de Estado aquilo que a periferia da cidade já vivia havia quase cinquenta anos.
A relação entre Maranhão e reggae não é folclore de curiosidade turística, é a prova de que um gênero nascido do protesto de trabalhadores negros numa ilha caribenha conseguiu atravessar o Atlântico e encontrar, do outro lado, trabalhadores negros vivendo condições materiais assustadoramente parecidas, sob outro regime, em outra língua, mas sob a mesma lógica de opressão. Enquanto boa parte do planeta consome reggae pela porta larga de Bob Marley, São Luís construiu a própria porta, estreita, raspada e quase clandestina, e por ela entrou não um produto cultural de exportação, mas uma ferramenta real de identidade e resistência que a cidade fez questão de manter viva, pedra rara por pedra rara, até o Estado brasileiro finalmente reconhecer o óbvio.
Foto de capa por Felipe Larozza.




